Motaz Malhees impedido de entrar nos EUA: ator palestino faltará ao Oscar 2026 em protesto silencioso
Motaz Malhees, do filme 'La voce di Hind Rajab', não pode entrar nos EUA e faltará ao Oscar 2026; declarações e contexto cultural do caso.
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Motaz Malhees impedido de entrar nos EUA: ator palestino faltará ao Oscar 2026 em protesto silencioso
Por Chiara Lombardi — Em um episódio que é, ao mesmo tempo, pessoal e sintomático do nosso tempo, o ator palestino Motaz Malhees anunciou que não poderá comparecer à cerimônia do Oscar 2026, marcada para 15 de março de 2026, porque não lhe foi permitido entrar nos Estados Unidos. A notícia foi divulgada pelo próprio ator em um post no Instagram, onde deixa uma mensagem que mistura dor e firmeza: "Não me é permitido entrar nos Estados Unidos porque sou cidadão palestino. Dói, mas essa é a verdade".
Malhees é um dos protagonistas do filme "La voce di Hind Rajab", dirigido por Kaouther Ben Hania, obra que figura entre as candidatas a Melhor Filme Internacional. Em sua publicação, o ator também escreveu: "Você pode bloquear um passaporte, mas não uma voz. Sou palestino e permaneço em pé com orgulho e dignidade. Estarei lá com o espírito. Nossa história é maior que qualquer obstáculo e será ouvida". A frase reverbera como um refrão que desafia fronteiras físicas e políticas — um tema recorrente quando o entretenimento se transforma em espelho do nosso tempo.
O filme, vencedor do Leone d'Argento na 82ª Mostra de Cinema de Veneza, reconstrói um episódio brutal ocorrido em 29 de janeiro de 2024: voluntários da Mezzaluna Rossa recebem uma chamada de emergência. Uma menina de seis anos, Hind Rajab, está presa em um carro sob ataque em Gaza e implora por socorro. A diretora tunisina optou por usar a gravação real da ligação telefônica, recurso que deu ao filme uma carga documental e emotiva poderosa. A projeção em Veneza foi recebida com mais de vinte minutos de aplausos, um silêncio estupefato que ilustra como o cinema pode funcionar como um roteiro oculto da sociedade — expondo memórias, traumas e a urgência de escuta.
O episódio da proibição de entrada de Motaz Malhees traz à tona questões maiores: quem decide quais vozes são legitimadas no palco global? Quando um artista é barrado, a ausência em si vira um gesto político e simbólico — uma narrativa que transcende o tapete vermelho. Para além do gesto individual do ator, essa situação convida a uma reflexão mais ampla sobre mobilidade, representação e o papel das premiações cinematográficas como vitrines internacionais.
Em termos práticos, a ausência de Malhees na cerimônia provavelmente reforçará a atenção sobre "La voce di Hind Rajab" e sobre a história que o filme conta. O contraste entre a reconhecida recepção crítica — comprovada pelo prêmio em Veneza — e as barreiras administrativas enfrentadas pelo elenco é uma tensão que evidencia o quanto o cinema opera também como arquivo e testemunho.
Enquanto isso, Malhees prometeu estar presente "com o espírito", lembrando que, na semiótica do viral e do espetáculo, a presença pode assumir múltiplas formas. A memória, registrada pela película e pela voz de Hind, já circula além de fronteiras físicas. E, talvez, essa seja a última ironia: quando tentam silenciar uma viagem, a arte encontra outros caminhos para ecoar. A nossa tarefa como espectadores é escutar — e perguntar por que algumas vozes ainda encontram tantos obstáculos.


