Myung-Whun Chung é o novo Diretor Musical da Temporada 2026/2027 da Teatro alla Scala

Myung-Whun Chung assume a direção musical da La Scala na temporada 2026/2027; mistura de tradição, jovens talentos e foco em sustentabilidade e inclusão.

Myung-Whun Chung é o novo Diretor Musical da Temporada 2026/2027 da Teatro alla Scala

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Myung-Whun Chung é o novo Diretor Musical da Temporada 2026/2027 da Teatro alla Scala

Por Chiara Lombardi — Em uma decisão que mistura respeito à tradição e desejo de renovação, a Teatro alla Scala de Milão apresentou sua Temporada 2026/2027, marcada pela nomeação do Maestro Myung-Whun Chung como diretor musical. É uma coroação simbólica de um vínculo antigo e profícuo entre o maestro, a Orchestra e o Coro scaligeri, e o público da cidade — um gesto que se lê como reafirmação de identidade artística num momento em que os palcos europeus reinventam seu papel.

A primeira temporada com Chung à frente estreia com dois títulos verdianos de peso: Otello e Macbeth. A escolha sinaliza uma aposta clara na autoridade interpretativa do maestro sobre o repertório italiano, mas sem fechar o leque: a programação, idealizada pelo Sovrintendente e Diretor Artístico Fortunato Ortombina, combina grandes nomes históricos da casa com um painel robusto de jovens talentos e novas vozes.

Doze ou treze títulos — a temporada registra treze produções de ópera — e deles emergem sinais concretos de renovação: três títulos nunca encenados em Milão, quatro estreias de regência e outras quatro estreias de encenação. Há, portanto, um movimento estratégico de ampliar o repertório enquanto se preserva a qualidade artesanal das produções ‹— a oficina scaligera continua a ser um dos trunfos da casa. A ideia motriz, como defende Ortombina, é construir uma identidade coerente com a longa história do teatro, mas sempre com olhos voltados ao futuro.

Essa continuidade com a tradição convive com uma ambição de internacionalização das tournées e com preocupações práticas: a sustentabilidade da instituição, políticas de preço diferenciadas e estratégias de inclusão. A La Scala reafirma-se assim como casa da ópera e igualmente como palco para o ballet, concertos e encontros culturais, mantendo atenção especial ao público jovem — que hoje já representa cerca de um terço da audiência total.

O cartão de apresentação artístico de Chung na temporada vem com Otello, dirigido por Damiano Michieletto, um casamento entre a autoridade verdiana do maestro e a visão cênica contemporânea do regista. A produção carrega ainda um peso histórico simbólico: celebra meio século desde a primeira transmissão de inauguração scaligera pela RAI. Outro título relevante no calendário é Les Pêcheurs de perles, de Georges Bizet, uma obra que retorna ao palco milanês depois de décadas desde a última execução na casa, em 1948 — um gesto que sugere a reabertura de arquivos e memórias como parte do repertório renovado.

Mais do que anunciar uma sequência de espetáculos, a programação 2026/2027 da Teatro alla Scala configura-se como um roteiro oculto da cena cultural contemporânea: entre tradição e risco, produção artesanal e inclusão, o teatro se assume como espelho do nosso tempo e laboratório de formatos. Para o espectador, resta a promessa de encontrar, naquela temporada, tanto a familiaridade do cânone quanto o frisson do novo — o que, no fundo, é também o desígnio de qualquer grande teatro numa cidade europeia que se pensa guardiã de memória e incubadora de transformação.

Em termos práticos, a temporada anuncia um convite à cidade e ao mundo: revisitar clássicos, descobrir títulos inéditos por aqui e acompanhar a emergência de diretores e regentes que renovarão a matriz artística da casa. A La Scala sinaliza, portanto, que sua tradição não é um relicário isolado, mas um estúdio vivo onde a história se reescreve com o suporte técnico dos seus laboratórios e o compromisso público de acesso e sustentabilidade.