Piji vence Targa Tenco com ‘Sta registrando audio’ e reclama o realismo que falta à canção italiana
Piji conquista a Targa Tenco com 'Sta registrando audio' e pede que a canção italiana volte a falar o real. Um começo tardio, mas decisivo.
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Piji vence Targa Tenco com ‘Sta registrando audio’ e reclama o realismo que falta à canção italiana
Por Chiara Lombardi — Em um gesto que parece um corte de câmera sobre o nosso presente, o cantautor romano Piji recebeu a Targa Tenco de Melhor Opera Prima por Sta registrando audio. Aos 48 anos, depois de duas décadas dedicadas à música, teatro, rádio e escrita, e de milhares de shows, o prêmio no Teatro Ariston de Sanremo não é um epílogo: é um novo take. Como ele mesmo ironiza, “Posso finalmente sancire la fine della gavetta 1 e iniziare la gavetta 2”.
O reconhecimento na primeira noite do Premio Tenco 2026 coroou um disco nascido durante a pandemia e lapidado em tempos de guerra, tensões sociais e transformações tecnológicas. No palco, Piji apresentou três núcleos do álbum — ‘Sta registrando audio’, ‘Misanthropy Village’ e ‘Umano poco umano’ — condensando numa sequência de minutos a narrativa que sustenta o trabalho: isolamento, comunicação e a busca por uma humanidade possível enquanto, nas palavras do artista, “o mundo está em chamas”.
Há um paradoxo que atravessa essa história: vencer a Targa Tenco como estreia discográfica quando se carrega um currículo de vinte anos. Perguntado sobre isso, Piji se define mais como um debutante do que como um veterano — e essa declaração revela o espírito de quem vê a própria trajetória como múltiplos capítulos de ensaio. A experiência, admite, existe: subir ao Ariston sem ansiedade é fruto de uma forja longa. Ainda assim, o prêmio marca o começo efetivo de uma discografia deliberada.
Sobre o significado do reconhecimento, o músico foi claro: ganhar a Targa Tenco é o sonho de todo cantautor. Ele descreveu a placa como “uma pacca sulla spalla”, uma aprovação que vem não apenas do diretório do Club Tenco, mas do voto de 300 jornalistas de perfis e gostos diversos. Uma validação que, para Piji, funciona como uma estrela polar — não para repousar, mas para seguir compondo e narrando.
O cerne estético do álbum é também sua reivindicação ética. Piji critica a distância que, segundo ele, a canção italiana criou nos últimos anos em relação ao real: «troppo spesso ha fatto finta che non stesse accadendo nulla». Em linguagem direta e com a ironia que permeia sua obra, o artista pede que a música volte a espelhar conflitos, ansiedades e pequenas vitórias cotidianas — ou seja, que retome a função de espelho social.
Como analista cultural, não posso deixar de ver nisso um roteiro oculto do nosso tempo: um artista que transforma ruídos e mensagens de voz em narrativa coletiva, propondo um reframe da realidade. Sta registrando audio funciona como uma semiótica do viral e, ao mesmo tempo, como um mapa de sobrevivência psicológica — onde a voz gravada é testemunha e resistência.
Ao país, Piji deixou um recado em forma de áudio: que a Itália «ritrovi la sua forza nella cultura». É um chamado que ressoa para além de ego musical: é uma convocação para que a cultura volte a ser instrumento de análise e revitalização social. O prêmio, portanto, serve menos como consagração e mais como convocação — o sinal de que o roteiro deve continuar, com novos atos, novos desafios e o mesmo olhar agudo sobre o presente.
Em suma, a vitória de Piji no Tenco é um pequeno evento com potencial simbólico amplo: celebra-se um álbum, mas sobretudo se reafirma a urgência de uma canção que não abdique do real. No eco desse prêmio, o artista nos convida a ouvir com atenção: a pista sonora do tempo está toda naquelas vozes registradas.

