Rascunho raríssimo de Bob Dylan é encontrado dentro de um livro de Allen Ginsberg

Rascunho raro de Bob Dylan com versos de "I'm Not There" é achado dentro de livro de Allen Ginsberg; página vai a leilão em 21 de abril.

Rascunho raríssimo de Bob Dylan é encontrado dentro de um livro de Allen Ginsberg

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Rascunho raríssimo de Bob Dylan é encontrado dentro de um livro de Allen Ginsberg

Encontrada de forma quase cinematográfica, uma folha rasgada com versos datilografados de I'm Not There -- canção de Bob Dylan do final dos anos 1960 -- foi descoberta dentro do exemplar da coletânea poética Ankor Wat de Allen Ginsberg. A peça, até então desconhecida do grande público, reabre um capítulo íntimo da história cultural dos anos 60 e aponta para o roteiro oculto que liga poesia, música e arquivo pessoal.

O fragmento, descrito como uma bozza raríssima, traz versos que pertencem à canção registrada por Dylan em 1967 e que permaneceu inédita até 2007, quando reapareceu como parte da trilha sonora do filme homônimo dirigido por Todd Haynes. A descoberta ocorreu dentro do livro que pertenceu a Sally Grossman — amiga próxima de Dylan e esposa de seu primeiro empresário — e que, segundo registros, fora presenteado por Ginsberg em 1969.

Relatou o jornal britânico The Guardian que a página, arrancada do livro e encontrada casualmente entre as folhas, será levada a leilão no dia 21 de abril. A estimativa de preço indica um valor entre 20 mil e 40 mil libras (aproximadamente 23 a 45 mil euros), cifra que traduz não só o apelo de mercado por itens ligados a ícones da contracultura, mas também a aura documental de um rascunho que conecta dois protagonistas do cenário cultural: o poeta beat e o compositor folk-rock.

Como observadora do zeitgeist, eu vejo essa descoberta como um espelho do nosso tempo: um objeto íntimo que vira artefato público, deslocando memórias privadas para o lugar da circulação coletiva. A folha encontrada entre as páginas de Ankor Wat atua como um refrão material do qual emanam questões sobre autoria, performance e preservação. Não é apenas sobre palavras datilografadas; é sobre o arquivo como narrativa, sobre o modo como textos e canções circulam e ressignificam-se ao longo das décadas.

Historicamente, I'm Not There tem sua curiosa trajetória: composta e gravada por Dylan em 1967, a faixa ficou fora do repertório comercial por décadas, ressurgindo no projeto cinematográfico de Todd Haynes, que explorou as múltiplas facetas do mito Dylan. A descoberta do rascunho dentro de um livro de Ginsberg — figura central do movimento beat e interlocutor de muitos músicos e artistas da época — sugere um diálogo material entre poesia e canção, como se as páginas dos livros guardassem as trilhas sonoras invisíveis de uma geração.

O leilão, além de comercial, tem um componente simbólico: transforma um fragmento de intimidade em peça pública, convidando colecionadores, historiadores e fãs a revisitar não só a obra de Bob Dylan, mas a rede de relações que permitiu que poemas e canções se cruzassem nos anos 60. A estimativa em libras e euros sublinha também o valor transnacional desses artefatos — espelhos culturais que viajam entre continentes e narrativas.

Enquanto esperamos pelo martelo do leiloeiro, este rascunho permanece como um vestígio tangível de um tempo que continua a reverberar: a folha encontrada em Ankor Wat é, ao mesmo tempo, reliquia e espelho — uma peça para ser estudada, colecionada e, sobretudo, refletida.