Sarah Toscano estreia como atriz em remake italiano da história de 'Coda': aprendeu a língua de sinais para o papel

Sarah Toscano estreia no cinema em 'Non abbiam bisogno di parole' e aprendeu a língua de sinais para o papel; filme estreia na Netflix em 3 de abril.

Sarah Toscano estreia como atriz em remake italiano da história de 'Coda': aprendeu a língua de sinais para o papel

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Sarah Toscano estreia como atriz em remake italiano da história de 'Coda': aprendeu a língua de sinais para o papel

Por Chiara Lombardi — Para seu primeiro papel no cinema, Sarah Toscano precisou reaprender a olhar. Não apenas porque a atuação se constrói no olhar, mas porque a língua de sinais é feita antes de tudo para ser vista: rosto, olhos, expressão são partitura e corpo.

Em Non abbiam bisogno di parole, remake italiano de La Famille Bélier (e parente distante do premiado CODA - I segni del cuore), disponível na Netflix a partir de 3 de abril, a cantora e vencedora do Amici 2024 interpreta Eletta, uma jovem cantora nascida numa família de surdos que encontra, com a ajuda da professora de canto (interpretada por Serena Rossi), a coragem de seguir a própria voz.

O encontro entre artista pop e personagem que vive entre dois mundos — o da escuta e o do silêncio comunicativo — conforma um pequeno roteiro oculto sobre identidade e responsabilidade afetiva. Toscano, que já carrega uma legião de fãs adolescentes, conta que o que a aproximou de Eletta foi sobretudo uma característica interior: a determinação. "Eu amo me expor, gosto de me colocar à prova. A música sempre foi o meu idioma principal, mas o cinema sempre me atraiu; acredito que artistas polivalentes têm algo a mais", diz ela.

No processo de preparação, todavia, a artista teve de atravessar uma fronteira cultural real. "Eu estava aterrorizada", admite Sarah Toscano. E o motivo era nobre: o filme se propõe a retratar a vida de uma comunidade — a dos surdos — cuja semântica e ritmos comunicativos são frequentemente reduzidos ou mal compreendidos por quem ouve. Para não cair num eco superficial, ela dedicou três meses de estudo intenso: aulas diárias de língua de sinais, convivência com atores surdos e exercícios que a forçaram a transformar o olhar em veículo expressivo.

Entre as primeiras revelações, conta ela, houve uma quebra de expectativa. "Pensava que a língua de sinais era só observação das mãos; na verdade, a primeira coisa é olhar nos olhos. A expressão facial transmite muito — é uma verdadeira língua, que exige estudo prolongado. Depois desses três meses, consigo manter conversas breves, perguntar como vai, agradecer".

Além do aprendizado técnico, a atriz percebeu, na convivência, os limites que a sociedade impõe às pessoas surdas: "Há tantas barreiras cotidianas — banalmente, não podem seguir um telejornal ou muitos conteúdos de TV porque faltam legendas". Esse detalhe doméstico traduz uma cegueira institucional: a acessibilidade falha enquanto a indústria cultural, ao mesmo tempo que conta histórias de diferença, insiste em não dar ferramentas para que essas vozes sejam plenamente ouvidas e compreendidas.

No enredo, a protagonista vive um dilema clássico entre o cuidado para com a família e o impulso de se lançar no mundo. "O amor que Eletta sente por seus pais e pelo irmão é algo que reconheço; mas somos diferentes: eu amo a cidade, e mesmo sendo tímida, depois de um tempo me abro. O que nos une é a paixão pela música e a obstinação". Essa tensão — entre dever e desejo — funciona como espelho do nosso tempo: uma narrativa sobre quem somos quando a vocação nos puxa para fora do lugar seguro.

Como analista cultural, vejo neste projeto um reframe importante: a adaptação italiana não é só mais um remake; é um ponto de observação sobre como as diferentes geografias culturais abordam inclusão e representação. Trabalhar com atores surdos não foi um adereço, mas método — uma escolha que dá ao filme a espessura necessária para evitar a superficialidade sentimental. O resultado, espero, não será apenas entretenimento, mas um convite a repensar a forma como narramos e ouvimos as vidas que se situam fora do eixo da audição.

Sarah Toscano estreia assim num roteiro que exige sensibilidade e técnica. "O cinema me conquistou; eu quero continuar", afirma. E nós, espectadores, ganhamos a chance de ver a música como ponte: não apenas entre notas e versos, mas entre modos diferentes de existir, comunicar e sentir.