Veneza 83: o Pagellone do Lido na quinta jornada — aplausos, evasões e o espelho do nosso tempo
Veneza 83 no Lido: de frases incisivas a performances involuntárias, um panorama afiado sobre o sublime e o absurdo na quinta jornada.
RESUMO ✦
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Veneza 83: o Pagellone do Lido na quinta jornada — aplausos, evasões e o espelho do nosso tempo
Chegamos ao Lido com diferentes missões: há quem viva pela sessão de cinema, outros pelo red carpet, alguns só pelo brinde no bar do Excelsior. E há quem, como nós, carrega caderno e ironia para relatar o que não entra nas notas oficiais — os aplausos que viram mar, os silêncios que cortam como vidro, os looks que parecem desafiar a física e os rumores que surgem mais rápido do que as vaporettos na Laguna.
Nesta quinta jornada, a Mostra ofereceu, curiosamente, momentos que não pertencem apenas à projeção: o destaque verbal veio de May el-Toukhy, a quase única presença feminina no concurso, que resumiu com franqueza desconcertante: “Só se fala do génio masculino”. Uma frase simples, direta, que funciona como espelho do nosso tempo — um lembrete necessário de que o roteiro público ainda precisa ser reescrito com mais vozes.
O episódio de cinema de vanguarda do dia não foi um filme, mas uma conferência de imprensa que virou performance. No centro, o maestro sul-coreano Lee Chang-dong, e na plateia, a ausência de tradução simultânea transformou perguntas e respostas num verdadeiro odisséia linguística: pergunta em inglês, tradução para coreano, resposta em coreano e nova tradução para o inglês. No intervalo, alguns jornalistas reservaram férias até 2028; outros, simplesmente, completaram um paciência.
Houve ainda um prêmio simbólico que adoramos batizar de ‘Era melhor se eu tivesse ficado em casa’, concedido sem hesitação a Luca Marinelli. Não por um desempenho diante das câmeras, mas pela arte sutil da esquiva: dribles, fintas e contorções verbais para escapar de qualquer pergunta que exigisse compromisso. Uma medalha de ouro na evasão artística — espetáculo off-screen que revela mais sobre a indústria do que muitos filmes.
Voltando ao verniz do festival: repete-se o fenômeno das celebridades usando óculos mesmo nos tapetes vermelhos noturnos. Será que estamos vendo o início de um remake estilístico de ‘A Cega de Sorrento’? E a menção especial ‘Morto de fama’ vai para a cena que personifica a semiótica do viral: uma jovem, certamente aspirante a influenciadora, cujo fotógrafo segurava a câmera numa mão e, na outra, um mini tapete vermelho que foi desenrolado apenas para o frame perfeito. O resultado? A clássica legenda: “Obrigada a toda a minha equipe”.
Fechamos a jornada com uma imagem doméstica e melancólica: esta foi a última domingo completo no Lido. A próxima será aquela da volta — trens lotados, malas que não fecham e uma saudade que se instala com a precisão de um take final. A Mostra do Cinema de Veneza continua sendo um palco onde o sublime encontra o absurdo, e onde cada gesto fora de cena conta tanto quanto o que acontece na tela.

