Venezia 83: Itália em destaque na seção Orizzonti com quatro filmes entre biografia, cronaca e estreias
Venezia 83: quatro filmes italianos em Orizzonti — biografia, cronaca e estreias que redesenham memória e cidade no Lido.
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Venezia 83: Itália em destaque na seção Orizzonti com quatro filmes entre biografia, cronaca e estreias
Por Chiara Lombardi — A programação de Venezia 83 para a seção Orizzonti revela um mosaico italiano que atravessa gerações e linguagens: quatro títulos que levam ao Lido olhares sobre biografia, cronaca, conflitti familiari e esordi registici. Entre o histórico e o íntimo, a presença italiana mostra como o cinema contemporâneo reinterpreta o passado e fatura as feridas do presente.
Em abertura simbólica, no dia 2 de setembro, às 16h na Sala Darsena, estreia La ragazza con la Leica, assinado por Alina Marazzi. Coprodução italo-alemã, o filme tem no elenco Emilia Schüle, ao lado de Aaron Altaras, Luna Wedler e Lucas Englander. A narrativa retorna ao 14 de julho de 1937, em Paris, no último dia de Gerda Taro antes de voltar ao front da Guerra Civil Espanhola ao lado de Robert Capa — um retrato onde a fotografia se faz militância e documento. Inspirado no romance biográfico homônimo de Helena Janeczek (prêmio Bagutta, Campiello e Strega em 2018), o longa reconstitui a vida de uma mulher que transformou a máquina fotográfica num instrumento para revelar a realidade.
Entre as obras mais aguardadas está La città dei vivi, de Edoardo Gabbriellini, programado para 4 de setembro às 16h45, também na Sala Darsena. Com Valerio Mastandrea, Emanuele Maria Di Stefano, Gaia Merlonghi, Simona Senzacqua e Roberta Mattei, o filme parte livremente do romance homônimo de Nicola Lagioia (Einaudi, 2020). A partir do ponto de vista de um jovem em formação, a obra constrói o retrato de uma cidade com fissuras — solitudini, contraddizioni e um cenário social que parece empurrar para uma tragédia. Embora inspirado no episódio que culminou na morte de Luca Varani, em Roma, em março de 2016, Gabbriellini opta por expandir o foco: menos crônica forense, mais sondagem das fragilità sociali e emotive que alimentam o acontecimento.
Completa o quarteto a presença de dois esordi que apontam para o íntimo e o relacional: I figli della scimmia, primeira obra de ficção de Tommaso Landucci, e Una storia, estreia na direção de Anna Foglietta. O primeiro promete um olhar familiar e comovente, uma narrativa que investiga laços e memórias; o segundo traz o recorte de conflitos domésticos e identitários, assinados por uma atriz que agora assume a direção, sublinhando como o cinema contemporâneo italiano frequentemente nasce do encontro entre experiência pessoal e pulso social.
Essa seleção italiana em Orizzonti funciona como um espelho do nosso tempo: enquanto Marazzi reconstrói um arquivo de coragem e exílio, Gabbriellini desafia a platéia a mirar as rachaduras urbanas; Landucci e Foglietta buscam no privado a chave para compreender tensões públicas. Em conjunto, os quatro filmes compõem um roteiro oculto da sociedade — uma gramática de imagens que ressoa como eco cultural entre memória, identidade e as urgências do presente.
Ao levar ao Lido propostas tão heterogêneas, a Itália demonstra que o cinema não é apenas entretenimento, mas também investigação e comentário. Em Venezia 83, os títulos italianos em Orizzonti são sinais de uma cinematografia que quer conversas, provocar perguntas e reabrir arquivos — não para fechar capítulos, mas para iluminar as linhas que conectam passado e presente.