Venezia 83 reabre os holofotes para Tinto Brass com o restaurado 'Col cuore in gola'
Venezia 83 homenageia Tinto Brass com o restauro 4K de 'Col cuore in gola' e possível presença do diretor na préabertura do festival.
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Venezia 83 reabre os holofotes para Tinto Brass com o restaurado 'Col cuore in gola'
Por Chiara Lombardi — Em um gesto quase cinematográfico que faz o roteiro encontrar a vida do autor, a Mostra di Venezia escolhe revisitar um dos nomes mais anticonformistas do cinema italiano. Na préabertura da 83ª edição, marcada para terça-feira, 1º de setembro, às 21h, na Sala Darsena do Lido, será exibido o thriller pop de 1967 Col cuore in gola, restaurado em versão digital 4K.
Dirigido e montado por Tinto Brass, e protagonizado por Jean-Louis Trintignant e Ewa Aulin, o filme foi rodado inteiramente em Londres e surge agora como uma peça-chave para reavaliar a fase experimental do cineasta nos anos 1960 — muito além da etiqueta de autor do cinema erótico que a opinião pública lhe colou posteriormente.
O restauro digital foi realizado pelo Centro Sperimentale di Cinematografia de Roma, com o apoio da Netflix, e utilizando os materiais pertencentes à Compass Film. A iniciativa transforma a projeção em evento: a película recuperada permite enxergar, com nitidez contemporânea, a mescla entre Pop Art, linguagem de quadrinhos e novas formas da cultura visual que Brass incorporava à sua gramática cinematográfica.
Há ainda um elemento humano que confere teatralidade à homenagem: a possibilidade da presença do próprio Tinto Brass, hoje com 93 anos, acompanhado da esposa Caterina Varzi. Se confirmar, o retorno ao Lido — cidade onde nasceu artisticamente e que permaneceu no seu imaginário — terá o tom de um reencontro íntimo entre autor e cidade, quase um espelho do tempo que o próprio cineasta ajudou a moldar.
Alberto Barbera, diretor artístico da Mostra, não escondeu a intenção de propor uma re-leitura. E Pietrangelo Buttafuoco, presidente da Biennale di Venezia, definiu Brass como “um genio anticonformista del cinema italiano”, lembrando que a tradicional préabertura dedicada aos venezianos deste ano celebra “um grande maestro”. Trata-se, portanto, de devolver complexidade a uma obra muitas vezes reduzida a um único rótulo.
Col cuore in gola conta uma narrativa construída sobre contradições e tensões desde o primeiro momento. Bernard, um homem cansado e desiludido, cruza com Jane diante do corpo de um desconhecido. Em apenas um dia e uma noite, os dois são envolvidos numa trama onde amor, medo, violência e desejo se entrelaçam sem resolução. Para Bernard, o encontro reativa um mecanismo de ilusões adormecidas — e o filme acompanha esse movimento como quem descobre, no escuro, um novo contorno do próprio rosto.
Mais do que celebrar um filme, a escolha da Mostra é um convite para repensar o legado de Brass: o cineasta que testou limites narrativos, que contaminou o cinema com referências visuais e pop, e que nos oferece hoje a chance de ler seu trabalho como um reframe da cultura visual dos anos 60. A projeção restaurada funciona como um espelho do nosso tempo, revelando como a experimentação estética pode ser também um interrogatório sobre a modernidade e seus desejos.
Será a préabertura uma simples homenagem ou o início de uma reavaliação crítica mais ampla? Seja qual for o desfecho, a presença do filme na 83ª Mostra reacende discussões sobre autoria, memória e o papel do restauro como ponte entre gerações — o roteiro oculto da sociedade que o cinema, por vezes, nos permite ler com clareza.

