Deixemos o termo 'woke' com os americanos, diz presidente da Academia della Crusca
Paolo D'Achille, da Academia della Crusca, defende deixar o termo 'woke' aos americanos, destacando a ambiguidade e o impacto no debate público italiano.
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Deixemos o termo 'woke' com os americanos, diz presidente da Academia della Crusca
Paolo D'Achille, presidente da Academia della Crusca e professor de Linguística Italiana na Università Roma Tre, propõe uma pausa na apropriação do anglicismo woke no debate público italiano. Em entrevista à Espresso Italia, D'Achille questiona a clareza e a utilidade do termo entre o público nacional: será que não vale a pena
deixar woke 'com os americanos', com todas as suas conotações históricas e culturais?
Do ponto de vista etimológico, woke vem do verbo inglês to wake, 'despertar'. Já nos anos 1940 o termo começou a ser usado nos Estados Unidos para designar uma consciência ativa sobre injustiças e discriminações. Na sua acepção originária, woke descreve pessoas e movimentos engajados na defesa de direitos civis e na luta contra desigualdades vinculadas a etnia, gênero e orientação sexual.
No entanto, alerta o presidente da Academia della Crusca, o sentido do termo se bifurcou. Hoje há uma acepção crítica — e amplamente utilizada no discurso político e mediático — que transforma woke em rótulo pejorativo contra posições progressistas consideradas radicais ou intolerantes. Nesse sentido negativo, o termo acaba por ser associado a debates sobre cancel culture e à polémica em torno da chamada teoria do gender.
O efeito é uma palavra com duplo polo semântico: de um lado, a ideia de vigilância ética contra discriminações; de outro, a etiqueta usada para deslegitimar e caricaturar essas mesmas lutas. Para D'Achille, essa oscilação torna woke pouco imediata para o público italiano: 'Não creio que seja uma palavra compreensível para todos', afirma, ressaltando que o uso divergente prejudica a compreensão coletiva.
Como analista cultural, penso que a discussão sobre a transferência de termos entre idiomas é também um espelho do nosso tempo. Palavras importadas chegam carregadas de contextos e memórias políticas que nem sempre se traduzem com fidelidade — é o roteiro oculto da sociedade que se desdobra em léxicos. A proposta de deixar woke aos americanos não é um fecho à circulação linguística, mas um convite à prudência: reconhecer a história do termo, sua semântica contingente e a responsabilidade dos atores políticos ao mobilizá-lo.
Na arena pública italiana, onde woke passou de vocábulo de ativistas a munição política, a recomendação da Academia della Crusca funciona como um chamado ao reframe da linguagem. Em vez de aceitar a palavra como um marcador neutro, seria mais produtivo explicitar o que se quer dizer — denunciar desigualdades, criticar métodos, ou combater exageros retóricos — para evitar que o debate se perca em etiquetas.
O caso woke ilustra como um termo pode se tornar um dispositivo de polarização: a semiótica do viral transforma significados e cria novos vetores de identificação. Talvez, como sugere D'Achille, a melhor tradução seja uma escuta atenta do contexto, e não a importação acrítica de uma palavra que carrega o peso de uma história comum a outro país.

