Venezia 83: o grande cinema fora de competição brilha em Venice Open
Venezia 83 revela o Venice Open: obras de Veronesi, Amelio, Schrader e outros num panorama crítico sobre fé, culpa e política no Lido.
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Venezia 83: o grande cinema fora de competição brilha em Venice Open
Em um panorama que escapa à corrida pelo Leão, a 83ª Mostra Internazionale d’Arte Cinematografica de Venezia, dirigida por Alberto Barbera e marcada no Lido de 2 a 12 de setembro, revela uma constelação de títulos de destaque na seção Venice Open – Fuori Concorso. Esse programa funciona como um espelho do nosso tempo: reúne nomes consagrados e vozes emergentes, navegando entre fé, política, memória e moralidade — o roteiro oculto da sociedade que o festival traz à superfície.
No centro das atenções está o filme de encerramento, Dio ride, assinado por Giovanni Veronesi. Com um elenco que inclui Pierfrancesco Favino, Silvio Orlando, Alma Noce, Francesco Gheghi, Maurizio Lombardi, Paolo Rossi e Carlo Cecchi, a obra se passa no coração do século XVII. A narrativa acompanha Frate Leopoldo da Casamacchia, um religioso que proclama um Deus próximo, consolador e até capaz de rir com os homens — uma visão que rompe com a liturgia oficial em latim e atrai milhares em peregrinação. A popularidade de Leopoldo provoca alarmes nas autoridades eclesiásticas, desencadeando um processo confiado ao cardeal Maculani, que transforma o julgamento em um confronto fundamental sobre fé, dúvida e liberdade de pensamento.
Também de relevo entre as produções italianas está Nessun dolore, o novo filme de Gianni Amelio, com Alessandro Borghi, Valeria Golino e Valerio Mastandrea. Amelio volta a Veneza com uma obra que busca incidir sobre a culpa e a responsabilidade: Borghi interpreta Davide, cuja vida é dilacerada pela morte trágica de um menino imigrante clandestino. A trama explora como uma culpa persistente reorganiza memórias e vínculos, numa narrativa íntima e socialmente ressonante — quase como um close-up moral do mundo contemporâneo.
Fora os italianos, a curadoria do Venice Open traz um mosaico internacional. Entre os cineastas confirmados estão Lav Diaz, Barthélémy Grossmann, Kornél Mundruczó, Halkawt Mustafa, Sabu, Tristan Séguéla e Alexandre Smia, além de nomes que reverberam historicamente como Paul Schrader. A seleção mistura cinema histórico, thrillers políticos, estudos de personagem e reflexões filosóficas — uma verdadeira semiótica do festival que sinaliza tendências e debates culturais.
Do thriller político de Alexandre Smia às investigações morais de Paul Schrader, passando pelas peças épicas de Kornél Mundruczó e pelos panoramas de Lav Diaz, a seção funciona como um palco para obras que não buscam competição formal, mas oferecem relevância crítica. É cinema que propõe um reframe da realidade: não apenas para entreter, mas para interrogar coletivamente as nossas narrativas de poder, fé e memória.
Na prática, o Venice Open reafirma a vocação da Mostra do Lido como observatório cultural global — onde o grande cinema fora de competição dialoga com o zeitgeist e oferece ao público, à crítica e à indústria pistas sobre o que poderá reverberar na temporada e além. Ver a programação é, então, ler as entrelinhas do presente: cada filme é um convite a refletir sobre o que nos constitui enquanto comunidade histórica e imaginária.

