Itália reabre o debate sobre o átomo 39 anos após o referendo: do pioneirismo às novas tecnologias
Itália reabre debate sobre energia nuclear 39 anos após o referendo, entre história, desmantelamento e novas tecnologias para autonomia e descarbonização.
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Itália reabre o debate sobre o átomo 39 anos após o referendo: do pioneirismo às novas tecnologias
A Itália retoma o diálogo sobre energia nuclear numa guinada estratégica que respeita a história e busca responder às necessidades atuais de autonomia energética, segurança e descarbonização. A proposta do governo Meloni reinserir o átomo no mix energético nacional chega 39 anos depois do referendo que, influenciado pelo medo pós-Chernobyl, levou ao apagão dos reatores ativos e à decisão de desativação entre 1988 e 1990.
Como economista e estrategista, vejo esse movimento como uma reconfiguração do motor da economia: não se trata apenas de uma opção técnica, mas de calibrar políticas públicas e infraestrutura para dar mais tração à independência energética, reduzindo vulnerabilidades externas. A proposta enfatiza que as novas gerações de reatores e os avanços em segurança apresentam um perfil diferente do que se viu nas tragédias do passado.
As origens do nuclear italiano
Tudo começou em novembro de 1946, quando um consórcio de privados — incluindo Montedison, Fiat, Pirelli, Falck, Edison e Sade — criou o Centro Informazioni Studi ed Esperienze, conhecido como Organizzazione Atomica Italiana, no Politecnico de Milão. A iniciativa visava responder ao crescente fabbisogno energético do pós-guerra e colocou a Itália, já nos anos 1960, entre os países de destaque na produção elétrica de origem nuclear.
As quatro centrais
Nos anos 1960 e seguintes foram construídas quatro centrais: Latina (Agip Nucleare), Garigliano (Caserta, com empréstimo do Banco Mundial), Trino Vercellese (Edison) e Caorso (em operação desde 1981). Essas usinas marcaram uma fase de autonomia relativa, mas também colocaram a energia nuclear no centro de um debate público intenso.
Chernobyl, o referendo e o desligamento
O desastre de Chernobyl em 1986 provocou forte reação popular e, um ano depois, três quesitos referendários obtiveram ampla aprovação: 71,9%, 79,7% e 80,6% de votos favoráveis, com 65,1% de participação. As medidas aprovadas atingiam instrumentos legais que permitiam à Enel atuar em acordos internacionais, compensações a municípios-sede de centrais e a competência do CIPE na localização de usinas. Entre 1988 e 1990 os reatores em atividade foram gradualmente desligados.
Do desmantelamento à tentativa de retorno
Em 2000 foi criada a Sogin, empresa estatal encarregada do desmantelamento das usinas e da gestão dos resíduos nucleares — um processo ainda em curso. Em 2009 o governo Berlusconi tentou reacender o projeto nuclear, mas o acidente de Fukushima, em 2011, reacendeu temores e culminou em novo referendo que barraria o retorno do átomo ao país.
O cenário atual e os próximos passos
Hoje, o governo propõe a reabertura do capítulo nuclear com ênfase em tecnologias mais seguras e na contribuição ao objetivo de descarbonização. Para que a volta seja crível, será necessário combinar excelência técnica, regulação robusta, transparência sobre gestão de resíduos e uma estratégia de comunicação que recupere a confiança pública — trabalho que exige a mesma precisão de uma calibragem fina em um motor de alta performance.
O desafio é político, econômico e social: encontrar locais adequados, solucionar a questão dos resíduos e harmonizar essa opção com metas climáticas e de custo para as famílias e indústrias. Como estrategista, sigo observando a proposta como parte de um design de políticas que visa acelerar a resiliência energética nacional, sem negligenciar o fator confiança da sociedade.