‘A Cena com o Ditador’: a sátira culinária que reflete o espelho de Franco

Filme 'A cena com o ditador' transforma a memória do pós‑guerra de Franco em sátira: chefs comunistas, banquete e fuga coletiva. Reflexão cultural e crítica social.

‘A Cena com o Ditador’: a sátira culinária que reflete o espelho de Franco

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‘A Cena com o Ditador’: a sátira culinária que reflete o espelho de Franco

Por Chiara Lombardi — Em um golpe de roteiro que mistura farsa e história, A cena com o ditador, de Manuel Gómez Pereira, retoma um capítulo sombrio da memória espanhola e o transforma em uma comédia mordaz. Selecionado para oito prêmios Goya e lançado nos cinemas pela Officine Ubu em 9 de abril, o filme volta a colocar no centro do palco o conflito entre a banalidade do poder e o que resta da humanidade em meio ao pós-guerra.

O pano de fundo é implacável: o dia 1º de abril de 1939 não é data para piadas na Espanha, mas o início oficial do fim da sangrenta guerra civil espanhola e do estabelecimento da feroz ditadura de Francisco Franco. É justamente nessa data que começa o artifício dramatúrgico do filme: um tenente de bigode exige, com pressa e autoritarismo, um banquete de celebração no mais luxuoso hotel de Madrid, o Palace — que, até então, funciona como hospital improvisado.

Enquanto feridos ocupam os corredores e a cidade se recompõe da violência, a direção do hotel é obrigada a transformar as camas em toalhas de mesa e os salões em palcos de uma normalidade forjada. A cozinha volta a trabalhar, a servidão alinhada se curva ao regime e o maître, discreto e calculista, faz de tudo para sobreviver — exceto ceder a um pedido. Faltam os chefs capazes de realizar um menu de gala: todos estão encarcerados. Todos são acusados de serem chefs comunistas.

Surge, então, a solução paradoxal que move a trama e a ironia: libertar temporariamente os cozinheiros para que preparem o banquete destinado aos vitoriosos, com a promessa — velada e cruel — de que serão devolvidos às celas assim que cumprirem sua função. A brigada de cozinha, ciente de que pode encontrar a morte ao regressar às grades, acata a ordem com ironia, talento e um plano cuidadosamente escondido no menu: uma fuga coletiva. Entre consommés, flans e costuras de panos brancos, desenha-se a cena de resistência.

O próprio Pereira admite que o ponto de partida veio da peça de José Luis Alonso de Santos, La cena de los generales, que expõe, em chave cômica, a degradação moral e as misérias provocadas pela guerra. A adaptação cinematográfica amplia o enquadramento: não é só um reviver histórico, é uma sátira do eterno retorno dos déspotas — “os ditadores de ontem e os populistas de hoje”, como sugere o diretor. Há um alerta claro: o poder absoluto assume traços de capricho, narcisismo e, em última instância, psicopatia.

Como observadora do zeitgeist, não me interessa apenas o riso provocado pelas cenas — interessa-me o que o riso revela. A cena com o ditador funciona como um espelho: ao servir a comédia, nos apresenta o roteiro oculto da sociedade que normaliza a violência e celebra a vitória de um lado sem responsabilizar a cultura da obediência. É uma obra que, ao mesmo tempo, homenageia a resistência cotidiana e interroga a amnésia coletiva que facilita a ressurgência de autoritarismos.

Mais do que uma comédia de época, o filme é um convite a relembrar e a repensar. A cozinha como teatro, o banquete como armadilha, os chefs como atores de um escape: tudo compõe a semiótica do viral histórico que insiste em nos ensinar que a memória é o ingrediente essencial para evitar que a receita se repita.