Marina Vlady, musa do cinema francês e italiano, morre aos 88 anos
Morre Marina Vlady, estrela franco-italiana do cinema e vencedora em Cannes; vida entre arte, ativismo e memória cultural.
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Marina Vlady, musa do cinema francês e italiano, morre aos 88 anos
Por Chiara Lombardi — A atriz, escritora e cantora Marina Vlady, figura que atravessou o cinema europeu como um verdadeiro espelho do nosso tempo, morreu aos 88 anos. A família comunicou à AFP que ela faleceu em sua casa, rodeada pelos entes queridos e pelos seus animais, celebrando "uma vida longa, bela e plena".
Nascida em Clichy, nos arredores de Paris, a 10 de maio de 1938, com o nome de Catherine Marina de Poliakoff-Baïdaroff, Vlady era filha de emigrantes russos: o pai, Vladimir Poliakoff, cantor de ópera, e a mãe, Militza Envald, étoile da dança. A trajetória que começou nas sapatilhas da Ópera de Paris encontrou cedo o roteiro oculto da atuação: aos 10 anos já contracenava em Orage d'été (1949) e, aos 16, por sua interpretação em Prima del diluvio de André Cayatte (1954), recebeu o prêmio Suzanne Bianchetti, destinado à jovem promessa do cinema francês.
Com uma filmografia superior a 80 títulos, sua carreira foi um verdadeiro reframe da realidade cinematográfica entre França e Itália. Foi considerada uma musa tanto do cinema italiano quanto do cinema francês, trabalhando com autores que definiram décadas: de Jean-Luc Godard em Deux ou trois choses que je sais d'elle, a Orson Welles em Falstaff, passando por Bertrand Tavernier, Chris Marker e Ettore Scola. Entre seus papéis mais memoráveis figuram La ragazza in vetrina (Luciano Emmer), La steppa (Alberto Lattuada), Una moglie americana (Gian Luigi Polidoro) e Splendor (Ettore Scola), ao lado de Marcello Mastroianni e Massimo Troisi.
O ápice do reconhecimento internacional veio em 1963, quando recebeu o prêmio de melhor intérprete no Festival de Cannes por sua atuação em Una storia moderna - L'ape regina, obra de Marco Ferreri que permanece como um eco cultural, revelando o lado inquietante e poético da modernidade. A vitória em Cannes consolidou sua posição como uma atriz cujo rosto e voz carregavam a semiótica de uma época em transformação.
Na vida pessoal, casou-se muito jovem: aos 17 anos uniu-se ao diretor Robert Hossein, formando uma das duplas mais célebres do cinema da época. Em 1969, casou-se com o cantor e poeta russo Vladimir Vysotsky e mudou-se para Moscou, vivendo ao lado dele até a morte do artista em 1980.
Além do repertório autoral, nos anos 1970 Vlady também transitou pela comédia popular, ampliando seu alcance junto ao grande público. Contudo, aquilo que a tornava singular era a convergência entre sua arte e seu compromisso cívico: seus filhos lembram em mensagem à AFP que Marina Vlady foi "uma mulher generosa, engajada por toda a vida". Do posicionamento contra a guerra da Argélia à adesão ao Manifesto das 343, passando pela defesa dos sans‑papiers e pelo direito à moradia, sua militância foi constante. Junto ao seu último companheiro, Léon Schwartzenberg, fundou o DAL (Associação pelo Direito à Moradia), traduzindo sua atenção social em ação organizada.
Ao longo de décadas, Marina Vlady encarnou um tipo de atriz que não se limitava à presença em cena: ela marcou o roteiro invisível das lutas sociais e culturais, deixando um legado que pede ser lido como um comentário sobre as tensões do século XX. Em sua voz havia a memória da diáspora russa, a intensidade do palco e a urgência política — uma combinação que a transformou num ícone cuja vida e obra continuam a refletir o cenário de transformação em que vivemos.
Enquanto o mundo do cinema recorda seus papéis e sua presença magnética, resta-nos escutar essa vida como se fosse um filme que projetamos na parede do presente: impossível separar a atriz do tempo que ela ajudou a representar.

