Lella Costa revive 'I Monologhi della Vagina': o teatro como consciência do presente

Lella Costa revive 'I Monologhi della Vagina' 30 anos após estreia nos EUA; estreia no Teatro della Cometa e final no Carcano em Milão.

Lella Costa revive 'I Monologhi della Vagina': o teatro como consciência do presente

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Lella Costa revive 'I Monologhi della Vagina': o teatro como consciência do presente

Em uma noite que é tanto estreia quanto espelho do nosso tempo, Lella Costa retorna ao palco para apresentar I Monologhi della Vagina, peça que completa três décadas desde sua primeira encenação nos Estados Unidos. A estreia desta noite no Teatro della Cometa, em Roma, antecede o grande final no Carcano, em Milão — itinerário que transforma a montagem em um pequeno rito público sobre memória, corpo e voz.

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Em conversa íntima, a atriz e comediante italiana traça o mapa desse reaparecimento: não se trata apenas de reencenar textos conhecidos, mas de reabrir um arquivo afetivo e político. Para Lella Costa, o teatro continua sendo uma forma de consciência do presente, um lugar onde a palavra encarnada confronta o tempo histórico e a experiência individual. Se o texto de Eve Ensler se tornou um clássico do ativismo teatral, a nova leitura de Costa propõe um reframe: como ecos de uma década podem reverberar sob novas urgências sociais e feministas?

O que vemos no palco é o que chamamos de corpo da palavra — isto é, a materialidade da fala que não se esgota no conteúdo, mas que se articula com gestos, silêncios e uma presença que escreve memória em cena. Essa aposta performativa transforma o monólogo em um dispositivo de escuta coletiva: o público não apenas assiste, ele recebe um espelho do nosso tempo e é convidado a reconhecer padrões culturais e violências naturalizadas.

Ao longo da conversa, Costa enfatiza que revisitar I Monologhi della Vagina em 2026 é, também, medir o quanto as narrativas sobre corpo, desejo e violência se modificaram — e o quanto permanecem. A peça funciona, então, como um arquivo vivo que nos obriga a perguntar o “porquê” por trás das mudanças legislativas, das campanhas nas redes e das novas práticas de visibilidade. O teatro, nessa leitura, é menos celebração nostálgica e mais vigilância crítica: o palco vira uma lente que revela o roteiro oculto da sociedade.

Há na montagem de Costa uma economia de humor que jamais abdica da gravidade. A atriz, conhecida por sua verve cômica, utiliza a ironia como ferramenta de aproximação: rir para depois reconhecer. Essa estratégia permite que o espectador se veja confrontado sem que a experiência se feche em moralismos, abrindo caminho para um diálogo estético e ético.

Ao encerrar a temporada em Milão, com o grande final no Carcano, o espetáculo se coloca como um acontecimento cultural que atravessa a longa sombra do passado e a urgência do presente. Mais do que uma reprise, a montagem de Lella Costa é um exercício de responsabilidade teatral — uma chamada para que a arte continue sendo aquilo que a cidade precisa: um espaço público de pensamento, emoção e transformação.

Foto: LaPresse

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