Antonio Donato leva o ‘vírus do cinema’ a Cannes com Oh Boys
Antonio Donato chega a Cannes com Oh Boys, curta que investiga o arquétipo masculino e o 'vírus do cinema' que o formou.
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Antonio Donato leva o ‘vírus do cinema’ a Cannes com Oh Boys
Por Chiara Lombardi — Em um roteiro onde memória e cinema se refletem como um espelho do nosso tempo, Antonio Donato, jovem diretor milanês de 29 anos com raízes napolitanas, calabresas e pugliesas, chega a Cannes representando um cinema que nasce da experiência íntima e da observação social. Diplomado na London Film School e premiado com o primeiro curta Sparare alle angurie, Donato é atualmente o único diretor italiano confirmado na seleção da Quinzaine des cinéastes com o curta Oh Boys.
O anúncio ainda soa um pouco surreal para ele: “Se eu já metabolizei a notícia? Ainda não.” Donato conta que soube da seleção numa noite de cinema — estava assistindo a Satantango de Béla Tarr, uma sessão maratona de sete horas e meia — quando saiu da sala e encontrou o celular inundado por mensagens. O jovem diretor espera, porém, não permanecer sozinho na representação nacional e torce para que outros títulos italianos sejam adicionados à programação até o início do festival.
Oh Boys foi filmado em Pisciotta, no parque do Cilento, e funciona como um tríptico: três episódios interligados por um fil rouge, com um personagem recorrente que atravessa as histórias. A proposta retoma o tema de Sparare alle angurie: a investigação do arquétipo masculino — aquele que “não deve pedir nunca” — e as distorções que essa imposição gera na esfera social e psicológica. Na leitura de Donato, esse ideal de virilidade inexorável produz um ambiente no qual a fragilidade é excluída, criando fissuras e tensões cotidianas.
O jovem ator que encarna esse universo é Luca Lacerenza, descoberto pelo diretor em uma busca pouco convencional: o Facebook. E as parcerias criativas seguem a mesma mistura de acaso e afinidade. Paolo Carbone, coautor do roteiro ao lado de Andrea Orsenigo e Dania Rendano, é descrito por Donato como “melhor amigo, mestre de cinema e alma gêmea artística”. Juntos, já traçam o próximo passo: a transposição de Sparare alle angurie para o primeiro longa-metragem, cuja produção ficará a cargo da Cinedora, casa produtora de Vermiglio.
A paixão de Donato pelo cinema tem uma origem quase literal: aos 15 anos, internado por causa de um vírus, ele devorou filmes. Foi assim que o contato com Nuovo Cinema Paradiso — e com a figura de Salvatore, apelido que lhe deram em casa, Totò — acendeu o que ele chama de “o vírus do cinema”. Curado fisicamente, permaneceu portador dessa febre criativa.
Formado também em Economia e Gestão Cultural e do Espetáculo — condição acordada com os pais antes de seguir para a escola de cinema em Londres — Donato reúne na sua trajetória um equilíbrio entre formação acadêmica e inquietude artística. Seus filmes, ao invés de reduzir o entretenimento a mera distração, funcionam como um reframe da realidade: contêm a semiótica do viral e a leitura crítica de códigos de gênero que persistem como roteiros ocultos da sociedade.
Em Cannes, Antonio Donato leva não só um curta, mas um discurso sobre masculinidade, pertencimento e fragilidade, embalado por uma reverência à forma cinematográfica. É um eco cultural que convida a plateia a olhar além da superfície, a ver no curta um espelho histórico e contemporâneo — e a escutar, entre cenas e silêncios, o que sobra do humano quando o arquétipo insiste em não permitir sentimentos.