L'armata Brancaleone faz 60 anos: bastidores, acusações a Catherine Spaak e o duelo entre Gassman e Volonté

L'armata Brancaleone faz 60 anos: curiosidades, acusações a Catherine Spaak, duelos entre Gassman e Volonté e o legado de Monicelli.

L'armata Brancaleone faz 60 anos: bastidores, acusações a Catherine Spaak e o duelo entre Gassman e Volonté

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L'armata Brancaleone faz 60 anos: bastidores, acusações a Catherine Spaak e o duelo entre Gassman e Volonté

Por Chiara Lombardi — Em 7 de abril de 1966 estreava nas salas italianas L'armata Brancaleone, a comédia que reescreveu o imaginário medieval nas mãos de Mario Monicelli. Sessenta anos depois, o filme mantém-se como um espelho do nosso tempo: um roteiro cômico que, ao nos divertir, revela as tensões sociais e os arquétipos de uma Itália em transformação.

Protagonizado por Vittorio Gassman (Brancaleone da Norcia), Gian Maria Volonté (Teofilatto dei Leonzi), Catherine Spaak (Matelda), Enrico Maria Salerno (Zenone) e Carlo Pisacane (Abacuc), o longa foi premiado com três Nastri d'argento e apresentado no concurso do 19º Festival de Cannes. Ambientado num imaginário século XI, o filme acompanha a expedição de Brancaleone e sua trupe rumo ao feudo fictício de Aurocastro, no sul da Itália — uma peregrinação tragicômica que mistura farsa e melancolia.

Para comemorar as seis décadas, revisitamos algumas curiosidades e pequenas fissuras do set que ajudam a entender por que o filme se tornou um ícone da comédia italiana:

  • Acusações em cena: relatos de bastidores falam de tensões envolvendo Catherine Spaak. Algumas memórias da produção descrevem atritos e episódios que foram lidos por contemporâneos como comportamentos rudes ou de pressão — rotuladas por alguns, na época, até mesmo como formas de "bullying". A precisão desses relatos varia conforme as vozes que os contam, mas a polêmica faz parte da mitologia do filme.
  • Duelo fora das câmeras: conta-se que Gian Maria Volonté e Vittorio Gassman travaram pequenas disputas físicas — inclusive desafios de braço de ferro — como expressão de rivalidade competitiva e camaradagem nervosa. Essas cenas de confronto revelam o subtexto de uma equipe que, apesar das fricções, queria extrair a máxima intensidade dos personagens.
  • Língua e invenção: o roteiro e a direção trabalharam uma língua pseudo-medieval, um macarrônico estilizado que brinca com latim e vocabulário popular. Essa escolha formal não é apenas um artifício cômico: funciona como um reframe da realidade histórica, uma semiótica do grotesco que permite rir sem romper a verossimilhança.
  • Um clássico que germinou outro filme: o sucesso e o estatuto cult de L'armata Brancaleone deram origem a uma continuação, mantendo vivo o eco cultural do personagem e ampliando a sua recorrência na memória coletiva italiana.
  • A matéria do cenário: embora Aurocastro seja ficção, as paisagens e vilarejos que aparecem evocam o sul peninsular — a geografia do filme alimenta a sensação de jornada épica e, ao mesmo tempo, de miséria humana, transformando locais comuns em elementos dramáticos e cômicos.

Seis décadas depois, o filme continua relevante porque encapsula um duplo movimento: por um lado, a comédia devolve ao presente imagens e tipos do passado; por outro, revela o roteiro oculto da sociedade — as vaidades, as alianças frágeis, os mecanismos de exclusão. Como um diretor que recorta uma cena decisiva em preto e branco, Monicelli nos oferece, com humor ácido, o espelho do nosso tempo.

Em tempos de revisitação crítica dos bastidores e das hierarquias de produção, revisitar L'armata Brancaleone é também perguntar quem escreve as memórias do set e com que lentes. A comédia permanece, mas as margens do que foi dito e do que foi vivido continuam a ser reescritas pelas vozes que sobrevivem — e por novas leituras que insistem em olhar além do riso.