Demi Moore: 'Sou grata a Cannes — me devolveu a vida' entre glórias e recomeços
Demi Moore, jurada em Cannes, celebra o renascimento artístico após 'The Substance' e fala sobre carreira, idade e igualdade na indústria.
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Demi Moore: 'Sou grata a Cannes — me devolveu a vida' entre glórias e recomeços
Por Chiara Lombardi — Em meio ao manifesto do Cannes 79, com a imagem icônica de Thelma & Louise ao fundo, Demi Moore falou com uma sinceridade que parecia um roteiro bem escrito: voltar ao festival agora como jurada a faz sentir-se "como uma criança que brinca de ser adulta". A surpresa estampada em seu rosto veio junto com a pergunta que lhe passou pela cabeça quando recebeu o convite: "vocês realmente me estão pedindo isso?".
Moore representa uma ponta de glamour em um júri comandado pelo diretor Park Chan‑Wook — o primeiro sul‑coreano a ocupar a presidência do evento — e composto por cineastas e artistas de forte tempero cinefílico, como a premiada Chloé Zhao, o veterano roteirista Paul Laverty e o ator sueco Stellan Skarsgård. A sua presença, porém, não é apenas simbólica: tem raízes em uma virada artística que começou aqui, na Croisette.
Ícone da Hollywood dos anos 1990 — lembrada por Ghost, Codice d'onore (A Few Good Men), Proposta indecente e Striptease — Moore estreou na Montée des marches em 1997 ao lado do então marido Bruce Willis para promover O Quinto Elemento de Luc Besson. Mas foi apenas dois anos atrás, quando o cinema americano parecia tê‑la deixado em segundo plano, que a atriz reconquistou prestígio no circuito autoral europeu: graças ao horror de caráter feminista The Substance, da diretora francesa Coralie Fargeat, Moore voltou ao foco — conquistou um Globo de Ouro e ficou muito próxima de uma indicação ao Oscar.
Hoje, aos 63 anos, vive uma espécie de segunda juventude profissional — disputada pelas grandes casas de moda e beleza como embaixadora — e com uma agenda de novos trabalhos que incluem a série Landman, de Taylor Sheridan, com Billy Bob Thornton e Andy Garcia; Strange Arrival com Colman Domingo; e Songbird. "Não posso negar: o impacto daquele filme foi enorme e inesperado. Abriu portas não só para mim", confessou, lembrando que tudo começou em Cannes e que se sente profundamente grata.
Com a voz firme e um leve sorriso irônico, Moore também usa a sua trajetória para rebater o mito cruel que diz que a carreira de uma atriz termina aos 40. "As coisas mudaram muito para nós — e para as mulheres na indústria —, mas isso não quer dizer que a igualdade esteja alcançada. É um work in progress", afirmou, deixando claro que a luta por representação e oportunidades continua sendo parte do seu roteiro pessoal.
Num festival que é sempre um espelho do tempo, a devolução de espaço e visibilidade a artistas como Moore funciona como um reframe — uma reescrita de um personagem que, no passado, foi marginalizado pelo cronômetro da idade. A atriz não se esquiva de discutir temas maiores do festival — inclusive o debate relançado por Pedro Almodóvar, que presidiu o júri em 2017 e retorna à competição com Amarga Navidad — mostrando que, para ela, a experiência de Cannes é tanto celebração quanto campo de disputa por liberdade artística e reconhecimento.
Mais do que um retorno, trata‑se de um eco cultural: a Croisette devolveu a Moore uma plataforma, e ela a transforma em voz — elegante, resistente e consciente — de quem insiste em reescrever a própria narrativa.