Finale: Allegro — Barbara Bouchet encanta em fábula sobre memória, desejo e o direito ao fim

Finale: Allegro, de Emanuela Piovano, com Barbara Bouchet, explora memória, desejo e o direito ao fim com delicadeza e impacto emocional.

Finale: Allegro — Barbara Bouchet encanta em fábula sobre memória, desejo e o direito ao fim

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Finale: Allegro — Barbara Bouchet encanta em fábula sobre memória, desejo e o direito ao fim

Apresentado no Bif&st, Finale: Allegro, novo filme de Emanuela Piovano, chega como um pequeno espelho do nosso tempo: um roteiro que observa a velhice não como catálogo de doenças, mas como paisagem de desejos, lembranças e escolhas. É um filme íntimo, que privilegia a delicadeza do gesto e a densidade das emoções.

Já a decisão de centrar a narrativa em uma mulher na casa dos oitenta — sem amontoar sobre ela os clichês que o cinema costuma reservar a essa faixa etária (Alzheimer, demência, imobilidade) — merece reconhecimento. E ainda mais por tê-la entregue a Barbara Bouchet, cantora inesquecível do cinema B italiano que, ao longo da carreira, trabalhou com Scorsese, Risi, Salce, Bolognini e Di Leo. No Bif&st ela recebeu o prêmio de melhor atriz protagonista, honraria que, aqui, parece genuinamente merecida.

O filme parte de questões pesadas, mas tratadas com uma leveza quase musical: o tema do fim de vida e do direito de decidir sobre ele; a memória e o esquecimento; o desejo e a possibilidade de recomeço. Em sua base está o romance de Margherita Giacobino, L'età ridicola (Mondadori), mas a adaptação de Emanuela Piovano — com a colaboração de Cristina Borsatti, Céline Gailleurd e Olivier Bohler — seca e concentra a matéria, eliminando flashbacks e fundindo duas amigas em uma só personagem para focar nos seis meses decisivos da vida de Karina.

No início do filme, Karina — pianista de renome e professora de conservatório — recebe um prêmio, sintoma de que seu nome ainda suscita admiração. Ainda assim, ela parece determinada a encerrar uma existência que sente cada vez mais solitária. A aparente solidão é contestada pela entrada em cena de Elena (Anna Bonasso), amiga vibrante que, mesmo lutando contra uma demência iminente, revela uma intimidade profunda com Karina: há entre as duas um afeto que, silenciosamente, se descortina como um grande amor do passado.

O conflito ganha contornos familiares quando Marco (Diego Casalis), filho de Elena, vê com desconfiança as visitas de Karina ao lar de cuidados. E surge também Max (Luigi Diberti), velho camarada que volta para buscar livros na velha soffitta — um detalhe que reintroduz o passado militante de Karina e sugere que sua vida foi escrita em múltiplas camadas.

O mérito de Emanuela Piovano está na sutileza do tratamento: o filme não se limita a discutir o direito ao fim, mas o faz como quem reencena, em câmera lenta, o roteiro oculto da sociedade sobre envelhecimento, amor e escolhas. Em uma temporada pouco generosa para o cinema italiano, Finale: Allegro se apresenta como uma surpresa sensível — um refrão discreto que insiste em lembrar que nunca é tarde para reescrever o próprio destino.