John Lennon renasce em imagem: o último grande depoimento ganha filme de Soderbergh com auxílio da IA

Soderbergh transforma a última entrevista de John Lennon em documentário com imagens geradas por IA; um olhar entre memória e tecnologia em Cannes 79.

John Lennon renasce em imagem: o último grande depoimento ganha filme de Soderbergh com auxílio da IA

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John Lennon renasce em imagem: o último grande depoimento ganha filme de Soderbergh com auxílio da IA

Em Cannes 79 estreou entre as projeções especiais um documento que mistura história, memória e tecnologia: John Lennon: the last interview, assinado por Steven Soderbergh. O filme reconstrói, em forma cinematográfica, a entrevista concedida por John Lennon na manhã de 8 de dezembro de 1980, poucas horas antes de ser assassinado por Mark David Chapman.

A gravação original — realizada por Laurie Kaye, Dave Sholin, Ron Hummel e Bert Keane para a pequena rede KFRC de San Francisco — aconteceu no apartamento do casal no Dakota Building, em Nova York, durante o lançamento do álbum Double Fantasy. O áudio, disponível publicamente e já presente em plataformas como YouTube, é agora o esqueleto narrativo desse documentário que aposta na força da palavra para desfazer mitos e iluminar intimidades.

Soderbergh, em parceria tecnológica com a Meta, montou um mosaico de imagens: filmagens de arquivo clássicas e inéditas, trechos de concertos e inserções criadas com inteligência artificial. O diretor descreveu a técnica usada como um “surrealismo temático” e garantiu que elementos gerados por IA representam apenas 10% do filme. Ainda assim, certas passagens soam forçadas — a presença abrupta de um homem-das-cavernas apontando para modelos de masculinidade ou a entrada fria de uma figura napoleônica criam momentos desconcertantes que atrapalham o fluxo meditativo do áudio.

É, portanto, mais frutífero ceder ao encanto das palavras de Lennon. As regras impostas pelos quatro entrevistadores — evitar perguntas sobre os Beatles e sobre seu passado — dissolvem-se diante do depoimento expansivo daquele que é apresentado como “o mais inteligente entre os músicos”. Sem filtros, John Lennon recusa o papel de modelo: “Não acredito que nós dois possamos ser um exemplo para os outros”, diz, descrevendo o disco como uma obra teatral em que ele e Yoko Ono se expõem como são, sem edições.

Na conversa, Lennon repete um mantra íntimo: sua prioridade é ser “um bom pai para Sean”. Conta que ficou cinco anos afastado da produção musical para exercer a paternidade e que esse período, paradoxalmente, alimentou sua criatividade. Há também um arrependimento sincero por não ter acompanhado a infância de Julian, filho de um relacionamento anterior.

Sobre política e ação social, Lennon relativiza a fé nas soluções institucionais: o poder, para ele, não reside nas armas nem apenas nos políticos, mas nas ideias e na comunidade. Junto com Yoko Ono, reafirma que a força mais subversiva pode ser o amor — um argumento quase profético num mundo à beira da automação: “se não, seremos substituídos pelos computadores”, sugere ela.

Há, ainda, reflexões sobre os Beatles: começo perfeito, depois transformado em um formato que o deixou perdido. O filme de Soderbergh funciona como um espelho do nosso tempo — um exercício de reframe que usa a tecnologia para tentar reinstalar a voz de Lennon no presente, questionando até que ponto essa reconstituição visual acrescenta ou aprisiona o legado.

Para quem busca o núcleo emocional do material, resta confiar no fluxo verbal de Lennon: uma fala que, mais do que encenar, pede escuta atenta. E é nessa escuta que o documentário encontra seu valor, mesmo quando tropeça nas possibilidades e limitações do AI.