Julianne Moore diz não querer mais filmes com armas e explosões: o olhar crítico de Cannes
Julianne Moore, homenageada em Cannes, afirma que evita filmes com armas e explosões; comenta cameo em Tom Ford e reflete sobre violência no cinema.
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Julianne Moore diz não querer mais filmes com armas e explosões: o olhar crítico de Cannes
Por Chiara Lombardi — Em Cannes, Julianne Moore surge elegante em um tailleur preto, com sapatos vermelhos que lembram pantufas volumosas — um detalhe de moda que virou comentário tanto quanto sua fala. O rosto sereno, a pele diáfana, as sardas e o cabelo ruivo preso revelam aquela mistura de precisão e fragilidade que a atriz transformou em assinatura. No festival, ela foi homenageada pela iniciativa Women in Motion, apoiada pela Kering.
Ao longo da conversa, Moore lembra com delicadeza dos começos: foi determinada, mas sem a ideia romântica de virar uma superestrela. 'Quando comecei no teatro, eu não fazia ideia de que era possível viver disso', diz. Passou pela televisão popular — a célebre soap 'Così gira il mondo' (As the World Turns) — e foi acumulando papéis que lhe permitiram explorar mulheres cultas, burguesas, marcadas por uma fragilidade interna que se expressa tantas vezes pelo silêncio e por micro-movimentos do rosto.
Recentemente, ela trabalhou na Itália: fez um cameo no novo filme de Tom Ford, 'Cry to Heaven', inspirado no romance de Anne Rice. O elenco inclui Nicolas Hoult, Hunter Schafer e Aaron Taylor-Johnson, e marca a estreia cinematográfica da cantora Adele. A narrativa, ambientada no universo da ópera, acompanha dois músicos do século XVIII — um camponês calabrês castrado para preservar a voz sopranil e um nobre veneziano que se torna seu mestre. 'Amo meu trabalho', afirma ela, com o afeto de quem também reconhece a potência do repertório clássico como cena de transformação.
Mas houve uma declaração que cortou a leveza do tapete vermelho e apontou para o pulso do nosso tempo: 'Sou menos interessada em tragédias. Vivemos um mundo que atravessa um período muito difícil; não quero atuar em filmes com pistolas, fuzis, explosões. Não gosto quando alguém é morto. Não gosto de histeria — de tudo aquilo que aumenta a aposta sem um sentimento verdadeiro por baixo'. São palavras que ressoam como um refrão do zeitgeist: a recusa do espectáculo da violência sem verossimilhança emocional.
Essa escolha, para além do gosto pessoal, funciona como um pequeno reframe da realidade do cinema contemporâneo. Se a tela é espelho do nosso tempo, a decisão de recusar o espetáculo armamentista é também uma tomada de posição estética e ética — um roteiro oculto que pede responsabilidade simbólica.
Moore recorda ainda sua relação antiga com Tom Ford: foi ele quem a dirigiu em 'A Single Man' e quem, anos depois, desenhou um vestido para a noite do Oscar — em 2015, quando ela venceu por 'Still Alice' — que acabou sendo 'demasiado transparente' para que ela tivesse coragem de usar. Sobre Pedro Almodóvar, ri ao lembrar de quando foi convidada para 'La stanza accanto': 'Me belisquei — toda atriz deseja trabalhar com ele'.
E a lembrança do Oscar vem acompanhada de honestidade sobre expectativas: 'Na véspera me disseram: se você não ganhar, será a maior decepção da sua vida'. A afirmação confessa a tensão entre reconhecimento e vulnerabilidade, entre a medida pública do talento e o íntimo da profissão.
Como analista cultural, vejo em Moore mais do que uma atriz em trânsito pelos festivais: ela é um espelho do debate atual sobre como contamos violência na ficção, sobre o que a audiência aceita como legítimo e sobre o papel dos artistas ao escolherem os seus personagens. Sua recusa é também um convite para repensar a semiótica do viral e do espetáculo imediato — uma pequena resistência que reverbera no cenário mais amplo do cinema europeu e global.
Ao final, permanece a imagem dela no tapete, com os sapatos vermelhos e o olhar calmo: uma artista que não renuncia ao ofício, mas que insiste em escolher o tom do seu discurso.