Mother Mary: Anne Hathaway e David Lowery redefinem o horror emocional do estrelato
Mother Mary: Anne Hathaway e David Lowery exploram fama, identidade e horror psicológico em melodrama pop produzido pela A24.
RESUMO ✦
Sem tempo? A Lili IA resume para você
Mother Mary: Anne Hathaway e David Lowery redefinem o horror emocional do estrelato
Por Chiara Lombardi — Na vitrine das estreias desta semana, selecionamos títulos que variam do suspense espião ao melodrama sombrio, mas é Mother Mary que rouba a cena com uma proposta que é, ao mesmo tempo, pop e profundamente inquietante. O filme assinado por David Lowery e produzido pelos especialistas da A24 atua como um espelho do nosso tempo: a fama como espetáculo religioso, a intimidade destruída pela luz pública e a busca por identidade além do aplauso.
Mother Mary não é um horror clássico; é um híbrido elegante: suspense psicológico, melodrama noir com tonalidades queer e lampejos sobrenaturais. No centro, está a relação tóxica entre duas mulheres extraordinárias — a estrela mítica e enigmática conhecida como Mother Mary, interpretada por uma Anne Hathaway como raramente se viu, e a criadora das roupas e do imaginário da artista, Sam Anselm, no corpo intenso de Michaela Coel.
Lowery, que ganhou atenção em 2021 com sua fábula distópica Sir Gawain and the Green Knight, traça aqui uma narrativa sobre criação artística e abandono. A Mother Mary do filme é uma popstar que combina a teatralidade de uma Lady Gaga com a aura mítica de uma figura messiânica: no palco ela exibe traje sensual, mas com uma espécie de auréola e manto azul que a transformam em ícone laico. Sam, por sua vez, é a criadora reclusa, hipersensível e capaz de gestos de vingança, cuja ferida antiga não cicatrizou quando a artista partiu.
O enredo morde o fio entre confissão íntima e espetacularidade: as duas se amaram, fundaram um personagem coletivo — a própria Mother Mary — e depois se perderam na engrenagem da fama. O retorno ao palco, um mega show que precisa transbordar significado, é o dispositivo que reacende o trauma e convoca a antiga parceira para confeccionar a roupa que simbolizará o renascimento artístico.
Lowery tem ambição ao mergulhar nas psicologias contraditórias de suas protagonistas. O que resulta na tela é um fluxo de consciência estilizado, que por vezes flerta com o sobrenatural: há espíritos, sessões mediúnicas e fenômenos que tangenciam o surreal e o splatter. A busca pelo peso emocional torna-se quase uma arqueologia do remorso — a incapacidade patológica de preservar o que foi precioso dentro de uma relação exposta ao público.
Esteticamente, o filme merece aplausos. Lowery constrói uma assinatura visual robusta; sua câmera investiga os vazios entre palco e bastidores, entre personagem público e pessoa privada. Ainda assim, a ambição dramática nem sempre se sustenta: o ritmo por vezes se perde em dispersões metafísicas que pedem um contra-ponto narrativo mais sólido.
Como observadora cultural, vejo Mother Mary como mais que uma história de amor e rancor: é um comentário sobre a semiótica do viral, sobre a teatralização das feridas e sobre o roteiro oculto que a indústria da fama escreve sobre corpos e afetos. O filme propõe um reframing da realidade pop — a performance como catacumba e palco — e nos força a perguntar o que resta do íntimo quando tudo vira imagem.
Além dessa estreia, vale acompanhar outras produções em circulação, do thriller de espionagem às curiosidades do streaming (lista completa nas sessões de cinema e plataformas). Mas quando o assunto é olhar cultural sobre a fama e suas ruínas, Mother Mary se coloca como peça-chave: um melodrama negro que, por vezes, soa como a trilha sonora de uma era que consome identidade e vomita ídolos.
Se você busca um filme que provoque mais do que entretenha, que atue como um espelho do nosso tempo e que traga debates sobre arte, memória e exposição pública, Mother Mary é parada obrigatória — especialmente para quem observa o efeito da cultura pop sobre gerações que crescem viralizando dores e celebrações.