O testamento de Ann Lee e outras estreias: Amanda Seyfried sacerdotisa, o 'bem comum' de Papaleo e mais
Crítica e panorama das estreias: 'O testamento de Ann Lee', Amanda Seyfried sacerdotisa, Papaleo e outras propostas que refletem o tempo presente.
RESUMO ✦
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O testamento de Ann Lee e outras estreias: Amanda Seyfried sacerdotisa, o 'bem comum' de Papaleo e mais
Por Chiara Lombardi — A temporada de estreias traz títulos que prometem e, em alguns casos, não conseguem cumprir plenamente suas ambições. Nesta seleção, há filmes que se apresentam como verdadeiros projetos de autor, com propostas estéticas fortes e elencos de peso, e outros que funcionam como espelhos fragmentados do nosso tempo cultural. Entre as propostas desta semana, destacam-se O testamento de Ann Lee, Il bene comune de Papaleo, Un bel giorno, Keeper – L’eletta (com Amanda Seyfried na pele de uma sacerdotisa), Reminders of Him – A parte melhor de ti, E.1027 – Eileen Gray e a casa no mar, Arco – Uma amizade para salvar o futuro, Hans Zimmer – O rebelde de Hollywood, Un semplice incidente e Material love.
Começo pelo título que mais pede atenção: O testamento de Ann Lee, dirigido pela norueguesa Mona Fastvold. Fastvold — que tem longa ligação pessoal e artística com o cineasta Brady Corbet — assume um material biográfico denso e paradoxal: a vida de Ann Lee, mística nascida em 1736 em Manchester, figura central do que viria a ser conhecido como o movimento Shaker (Society United of Believers in the Second Appearance of Christ). A história de Ann é um roteiro de contradições: de operária em fábricas têxteis à líder carismática que prega celibato, abstinência e disciplina extrema, sua trajetória atravessa perseguições, torturas e a migração para o Novo Mundo, onde morreu aos 48 anos.
Fastvold escolhe o musical como linguagem — uma decisão estética que tenta traduzir em forma sonora as convulsões místicas e o fervor ritual dos seguidores dos Shakers, cuja dança extática era marca registrada. A escolha sublinha poeticamente as palpitações ascéticas de Ann Lee e oferece momentos de excelente expressão visual e sonora. No entanto, o filme frequentemente não chega a penetrar emocionalmente o espectador: há distâncias, elipses e uma sensação de superfície diante da densidade trágica da protagonista. O que vemos é uma mulher marcada por uma devoção herdada da infância, uma vida de perdas (a destruição de suas filhas é tratada com brutalidade narrativa) e um afastamento do sexo que se converte em dogma pessoal e coletivo.
A narrativa de Fastvold mostra Ann proclamando-se continuadora da obra de Cristo — a face feminina do divino — e liderando uma comunidade que, entre fugas e recomeços, tenta estabelecer um ideal de convívio rural. As tensões com o sistema, as reações de intolerância e as punições físicas contra os dissidentes aparecem no filme com uma crueza que lembra como a história religiosa pode se transformar em dispositivo de controle social. Nos créditos finais, há uma nota quase frustrante: o movimento jamais atingiu a adesão massiva que sua fundadora imaginara — um epílogo que devolve à tela a dimensão quase teatral da ambição humana.
Em outras estreias, vale a pena observar a diversidade de propostas: Il bene comune de Papaleo parece querer escavar a ideia do coletivo em tempos de desconfiança; Keeper – L’eletta usa o arquétipo religioso (com a presença notável de Amanda Seyfried como sacerdotisa) para questionar autoridade e devoção; E.1027 revisita a fascinação moderna pela arquitetura e por figuras como Eileen Gray; e o documentário sobre Hans Zimmer propõe um retrato do artista como um rebelde que moldou o som do cinema contemporâneo.
O que une esses filmes não é apenas a qualidade variável das soluções cinematográficas, mas a tentativa de encenar crises de sentido: seja a fé que se transforma em dogma, seja o afeto que busca redenção, seja a memória que é reescrita pela arquitetura e pela música. Como espectadoras e espectadores, somos convidados a olhar essas narrativas como um reframe da realidade — pequenas lentes que nos permitem ler o presente à luz de dilemas antigos.
Se o cinema é um espelho do nosso tempo, essas obras oferecem muitos fragmentos de volta: uns mais nítidos, outros borrados, porém todos capazes de provocar o desejo de interrogarmos o roteiro oculto que governa crenças, afetos e comunidades.


