Project Hail Mary: Ryan Gosling, o cientista improvável que tenta salvar a humanidade (nota 7,5)
Análise de Project Hail Mary: Ryan Gosling em missão para salvar a Terra. Ficção científica com humor, direção de Phil Lord e Chris Miller. Nota 7,5.
RESUMO ✦
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Project Hail Mary: Ryan Gosling, o cientista improvável que tenta salvar a humanidade (nota 7,5)
Sentir o peso de salvar a humanidade é um fardo que raramente aparece em comédias — e é justamente essa colisão de tons que faz de L'ultima missione: Project Hail Mary um espelho curioso do nosso tempo. Dirigido pela dupla Phil Lord e Chris Miller e inspirado no romance de Andy Weir (2021), o filme combina ficção científica com humor e reserva um desfecho inesperado.
Tudo começa com um despertar confuso: um homem acorda mal, preso num saco, sobre um estranhíssimo leito, enquanto uma voz mecânica repete frases que, para ele, não fazem sentido. Aos poucos, a névoa da memória se dissipa e o público reconhece sob a barba e os cabelos desgrenhados o rosto de Ryan Gosling, protagonista e também produtor da obra. Ele é Ryland Grace, um ex-pesquisador de biologia molecular afastado da academia por ideias pouco ortodoxas e maneiras diretas demais, que acabou ensinando ciências num colégio do Connecticut antes de ser recrutado.
O contrafluxo entre a figura do professor tímido e o herói espacial revela o motor dramático do roteiro: a descoberta de misteriosos seres, apelidados de astrofagi, que circulam entre o Sol e Vênus ao longo da chamada "linha Petrova" e que se alimentam de calor, deixando o Sol cada vez menos luminoso. Em poucas décadas, a Terra pode perder sua principal fonte de vida — e o filme usa esse apelo existencial para criar tensão e, ao mesmo tempo, espaço para humanizar a ciência.
É Eva Stratt (interpretada por Sandra Hüller, com a precisão de sempre) quem coordena uma resposta global: reunir mentes brilhantes para entender como esses microrganismos se reproduzem e geram energia. As ideias de Grace, ao mesmo tempo subestimadas e essenciais, acabam por apontar o caminho — embora nem tudo se revele correto à primeira vista.
O plano que se impõe é quase uma parábola da ambição humana: viajar até Tau Ceti, uma estrela a cerca de 11 anos-luz que não sofre a perda de luminosidade do Sol, na esperança de descobrir um antídoto para os astrofagi. Construir a nave é apenas um detalhe técnico diante do desafio maior: montar uma equipe capaz de atravessar o vazio e a incerteza — um dilema que Lord e Miller tratam com leveza e respeito pela ciência.
O tom do filme oscila entre o riso e a reverência: há lampejos de comédia física e verbal — herança do percurso cinematográfico dos diretores, que passaram por Shrek III, Piovono polpette (A Fuga das Almôndegas) e The Lego Movie — enquanto o núcleo emocional mantém o espectador investido no destino de Grace e da missão. A presença discreta de Lionel Boyce como Carl acrescenta um contraponto simpático ao protagonista.
Do ponto de vista cultural, Project Hail Mary funciona como um reframe: a ficção científica aqui não é apenas espetáculo, é uma reflexão sobre responsabilidade coletiva, falibilidade científica e o que significa reinventar-se diante da catástrofe. O filme nos pede para olhar além do espetáculo espacial e ler o roteiro oculto da sociedade que luta para sobreviver.
No balanço final, há momentos em que a narrativa se apoia demais em convenções e outros em que surpreende pela sensibilidade e coragem de brincar com a expectativa do público. O desfecho, inesperado, confirma a aposta de Lord e Miller em um cinema que dialoga com o presente sem renunciar ao entretenimento.
Nota: 7,5. Um longa que mistura humor e ciência, com uma atuação contida e eficaz de Ryan Gosling, e que funciona como um eco cultural sobre nossos medos e esperanças coletivas.


