Por que a ‘primeira serata’ começa cada vez mais tarde? A solução da Rai e da Mediaset e o impacto para o público

Rai e Mediaset adiam início da primeira serata e exibem apenas um episódio: entenda testes, datas e riscos para audiência e publicidade.

Por que a ‘primeira serata’ começa cada vez mais tarde? A solução da Rai e da Mediaset e o impacto para o público

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Por que a ‘primeira serata’ começa cada vez mais tarde? A solução da Rai e da Mediaset e o impacto para o público

Por trás do relógio da televisão italiana há um pequeno drama de alteração de ritmo: a primeira serata deslocou-se tão para a frente que hoje começa quase sempre às 22h. Entre estratégias de contenção de custos, a feroz disputa pelo access prime time e protestos públicos — inclusive da humorista Luciana Littizzetto — as grandes redes estão testando remédios que nem sempre correspondem ao desejo dos espectadores: aguardar mais para ver menos.

Nos últimos anos, o embate entre Affari Tuoi e La Ruota della Fortuna empurrou a grade ao fim da noite. A programação da Rai1 acaba frequentemente sendo empurrada às 21h45–21h50, enquanto a oferta de Canale 5 só começa muito depois, perto das 22h. Esse atrito tem gerado críticas de produtores, rostos conhecidos da televisão e telespectadores nas redes sociais — um reflexo cultural sobre como consumimos entretenimento e como a TV linear se reposiciona no espelho do tempo presente.

Na próxima semana, as duas redes farão um novo teste que não reduz a duração dos game shows, mas altera a estrutura da primeira serata: em vez de transmitir dois episódios encadeados, será exibido apenas um episódio com cerca de 50 minutos. A série Roberta Valente - Notaio in Sorrento, que vem rendendo aproximadamente 20% de share, será fragmentada e ficará repartida em duas noites — domingo 3 e domingo 10 de maio — com exibição na Rai1 a partir das 22h, depois de uma edição prolongada de Affari Tuoi. Por volta das 23h seguirá o Tg1.

A manobra será replicada pela Canale 5 na segunda-feira 4 de maio, quando I Cesaroni deverá ir ao ar às 22h com apenas um episódio. A alteração, porém, pode prejudicar a atração: a terceira edição de I Cesaroni teve apenas 2.140.000 espectadores e 15,2% de share — em queda na comparação com a segunda (2.301.000 e 16,9%) e um lançamento que chegou a 3.486.000 e 22,6%. Em três semanas, a perda é de 1.346.000 telespectadores e 7,4 pontos percentuais de audiência.

Assim, Rai e Mediaset respondem às críticas sem tocar no front do access: preferem diluir a oferta da primeira serata, oferecendo ao público a possibilidade de ir dormir mais cedo, mas somente depois de ter esperado até as 22h para ver — por apenas uma hora — um conteúdo inédito. A razão prática é clara: séries e telefilmes são caros e segmentá-los em noites adicionais permite esticar orçamentos, ainda que exista o risco real de queda de audiência e, consequentemente, de perda de receita publicitária.

Não se trata de improviso. Maria Pia Ammirati, diretora da Rai Fiction, já anunciou que estão sendo produzidas séries com durações variadas: o formato tradicional eram episódios de 50 minutos combinados ocasionalmente em blocos de 100 minutos; agora há títulos como Stucky, com seis episódios de 65 minutos, e Gotico Padano, de Pupi Avati, com cinco capítulos de 60 minutos. A flexibilidade de "pezzature" permite experimentar noites únicas mais curtas ou rearranjos no cronograma.

Do ponto de vista cultural, a mudança é mais do que técnica: é um reframe da experiência coletiva de ver TV. A grade adiada é também um sintoma de um mercado em transição — que tenta conciliar o apelo massivo dos formatos clássicos com a necessidade de proteger investimentos narrativos. No entanto, empurrar o início da programação em vez de repensar o acesso é como prolongar os créditos finais de um filme para justificar menos cenas no ato seguinte. O risco é que o público, cansado da espera, vire a página para plataformas on‑demand, deixando o eco cultural da televisão generalista mais fraco.

Enquanto isso, produtores, apresentadores e espectadores seguem o debate: a televisão italiana parece procurar um novo compasso, mas ainda não encontrou a batida que agrade plateia e cofres publicitários. E a pergunta permanece — quase cinematográfica em sua simplicidade: esperamos mais tempo para ver menos ou aprendemos a reescrever o roteiro da noite?