Depois do início estrondoso, as notas dissonantes de Veneza: por que nem tudo deu certo
Crítica perspicaz sobre Veneza: abertura brilhante, mas falhas nas vozes femininas e obras que privilegiam a vitrine em vez do risco criativo.
RESUMO ✦
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Depois do início estrondoso, as notas dissonantes de Veneza: por que nem tudo deu certo
Depois do início estrondoso, as notas dissonantes de Veneza
Por Chiara Lombardi — Ao abrir o festival com títulos que prometiam impacto, a mostra veneziana entregou um espetáculo contraditório: na vitrine, filmes como Bunker, com a dupla Javier Bardem e Penélope Cruz, e Company, de Casey Affleck, tinham toda a construção de produtos cuidadosamente curados — verdadeiros concept stores cinematográficos. Mas, ao acompanhar a programacão com olhos de quem busca o roteiro oculto da sociedade, é em obras como Una storia que percebemos as fraturas mais reveladoras. Não surpreende, portanto, que as propostas femininas tenham frustrado expectativas em Veneza.
O que chama atenção não é apenas a qualidade de imagem, o valor de produção ou o pot-pourri de nomes de peso, mas o que essas escolhas dizem sobre o desejo do festival de ser ao mesmo tempo relevante e vendável. Há filmes que chegam como vitrines perfeitas — polidas, com acabamento de luxo — e outros que, apesar de honestos em intenções, mostram-se mais enfileirados num catálogo do que integrados numa conversa profunda com o público. É aí que entra a decepção: quando a superfície vence a densidade.
Quando observamos Una storia, a leitura se amplia. A obra expõe — mesmo se de forma contida — um padrão que ajuda a entender o desempenho das realizadoras e protagonistas femininas nesta edição: roteiro que hesita, personagens que parecem rascunhos, e uma sensação de que a câmara muitas vezes se contenta em enquadrar a cena sem mergulhar no eco cultural que a história poderia provocar. É como se o festival, sedento por glamour e manchetes, preferisse peças que brilham por fora a narrativas que inquietam por dentro.
Isso não é um veredito absoluto sobre as artistas envolvidas, mas uma leitura crítica do cenário. O festival ecoa escolhas curatorialmente ambíguas: por um lado, prestigia nomes globais que atraem atenção; por outro, falha em oferecer espaço para que vozes femininas se arrisquem de verdade, sem a tutela de um mercado que sempre pede segurança criativa.
Em termos culturais, esse descompasso funciona como um espelho do nosso tempo. A indústria do entretenimento continua equacionando visibilidade com vendabilidade, e nessa equação as mulheres frequentemente aparecem como variáveis a serem calibradas. Insisto: olhar para Veneza como um catálogo de tendências pode ser sedutor — mas é insuficiente se queremos que o festival seja também um farol de risco e renovação.
Se há algo valioso nesta edição, é a oportunidade de ler as falhas como diagnóstico. O que a curadoria escolheu promover e o que deixou de promover nos diz mais sobre o roteiro oculto do presente do que qualquer tapete vermelho. Resta à crítica, ao público e às próprias cineastas transformar a decepção em impulso — uma chance para reescrever personagens, chacoalhar estruturas e devolver ao cinema a ousadia de que ele fala quando deixa de ser apenas uma bela embalagem.
Em suma: a abertura pode ter sido com estardalhaço, mas a partitura seguinte trouxe notas que doem — lembrando-nos que a verdadeira relevância cultural nasce quando forma e conteúdo se desafiam mutuamente, sem cedências fáceis ao consumo imediato.

