Nanni Moretti em Veneza: o diretor que se tornou o que não queria ser
Em Veneza, Nanni Moretti apresenta 'Succederà questa notte': um filme que revela a transformação do autor em ícone protegido, sem ousadia estética.
RESUMO ✦
Sem tempo? A Lili IA resume para você
Nanni Moretti em Veneza: o diretor que se tornou o que não queria ser
Por Chiara Lombardi
O novo filme de Nanni Moretti, Succederà questa notte, chega ao concurso de Veneza sob um status tão singular quanto ambíguo: trata-se de um mestre acolhido por um público e uma crítica que, por vezes, o reverenciam independentemente das obras que apresenta. Essa condição cria um efeito curioso e, no caso deste longa, revelador de uma tensão interna — a de um artista que, ironicamente, parece ter se transformado naquilo que um dia contestou.
Quem acompanha a trajetória do cineasta sabe que existe um episódio simbólico que ainda ecoa, o embate de 1977 com Monicelli, uma memorável rixa cultural que cristalizou a imagem de Moretti como o jovem provocador disposto a reescrever as regras do cinema. Hoje, no entanto, o menino que queria reformular a linguagem cinematográfica aparece no palco do festival como um regente quase intocável: o velho reverente do ofício que, por vezes, parece operar mais na esfera da autoridade do que da invenção.
Succederà questa notte carrega muitas marcas desse dilema. Em sua narrativa e em sua mise-en-scène nota-se uma predileção pelo olhar autobiográfico e pela ironia autorreferencial — traços que fizeram de Moretti uma voz única —, mas que agora, neste filme, soam confortáveis demais, protegidos por uma aura de celebridade. O risco, o desconforto e o sentido de transgressão que nos fazia olhar para seus filmes como espelhos do nosso tempo parecem diluídos numa reverência autoinduzida. É como se o diretor se colocasse atrás de um espelho do qual não espera ser desafiado.
Na tela, a sensação predominante é de um cinema que se olha: personagens que funcionam mais como avatares do autor, episódios que reconstroem memórias com zelo quase museológico, e uma narrativa que evita cortes bruscos com o presente contemporâneo. Há beleza — e momentos de exímia sensibilidade —, mas também a impressão de que o filme se protege atrás do estatuto do autor. O público e a crítica aplaudem distintamente; porém, o filme, enquanto organismo autônomo, perde densidade.
A presença de Jasmine Trinca em Veneza, ao lado do diretor, reforça essa sensação de continuidade de uma certa tradição do cinema italiano: atores, autores e plateias que se reconhecem num repertório comum de referências e afetos. Mas o cinema hoje pede algo mais: não apenas a confirmação de um cânone, mas o gesto que o interroga, o roteiro oculto que reescreve a própria tradição.
Em suma, Succederà questa notte é um filme que diz muito sobre a figura pública do cineasta: reflete o momento em que um artista se vê transformado pela história e pelo aplauso coletivo. O problema não é a reverência em si, mas o fato de que ela, nesse caso, funciona como um filtro que limita a experiência estética. O que fica é a sensação de uma obra que poderia ter provocado mais — menos celebração do criador e mais coragem estética — e, assim, reencontrar o lugar de incômodo produtivo que caracterizou os primeiros anos de Moretti.
Como espectadora e analista, fico com a pergunta que atravessa muitos festivais: quando a veneração institucional corrói o risco artístico, que tipo de cinema acabamos por celebrar? Nanni Moretti continua sendo uma presença ineludível — um nome que dialoga com a memória europeia e com a semiótica do nosso tempo —, mas Succederà questa notte nos lembra que a autoridade não substitui a invenção.
Assinado,
Chiara Lombardi — Espresso Italia

