“Wild Horse Nine” já merece a Leone d'oro — e nós preferimos Herzog a Clooney
Crítica de Chiara Lombardi: 'Wild Horse Nine' merece a Leone d'oro; Herzog e seu 'Bucking Fastards' resgatam a grinta da Mostra.
RESUMO ✦
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“Wild Horse Nine” já merece a Leone d'oro — e nós preferimos Herzog a Clooney
Por Chiara Lombardi — Em um festival onde a retórica do político muitas vezes se disfarça de cinema, surge um filme que recupera a alegria e a precisão da escrita cinematográfica. Wild Horse Nine, o novo trabalho de Martin McDonagh, apresenta-se como um pequeno grande triunfo: um exercício de estilo que é ao mesmo tempo um divertimento fogoso e uma audácia cômica calculada. É um filme que, em suas linhas e silêncios, me parece já clamar pela Leone d'oro — não por oportunismo, mas por merecimento.
A escrita de McDonagh funciona como um roteiro de teatro traduzido para a tela com pulso cinematográfico. O humor tem arestas, a lucidez combina com o desencanto, e a montagem dá ritmo a uma partitura que nunca perde a intenção. Como em um espelho do nosso tempo, Wild Horse Nine reflete pequenas contradições sociais com ironia afiada, lembrando que a comédia, quando bem feita, é uma lente potente para ver o real.
Enquanto isso, e felizmente para o festival, o veterano Herzog reaparece com Bucking Fastards, um filme que parece tirar do repertório do diretor alemão um novo sopro de vitalidade. A premissa é curiosa e estranhamente hipnótica: a história de duas gêmeas que falam em sincronia. Há algo de ensaio e ritual nessa proposta — a semiótica do viral encontra a fábula antropológica. Herzog não inventa moda; ele reconfigura modos de ver, insistindo naquilo que chamaria de pulsão primitiva do cinema: a capacidade de nos perturbar e nos maravilhar.
Entre os dois polos — a fina comédia de texto de McDonagh e a experimentação ritualística de Herzog — a Mostra volta a mostrar sua função primordial: ser palco onde o cinema tensiona as convenções. E é por isso que, se me perguntarem sobre preferências pessoais, eu diria que, por estes dias, preferimos Herzog a Clooney. Não por desmerecer o trabalho do outro, mas porque o cinema de Herzog ainda cultiva uma fome de risco que parece rara num circuito cada vez mais profissionalizado.
O que nos resta, então, é celebrar filmes que não acomodam. Wild Horse Nine encanta pela escrita e pela malícia; Bucking Fastards impressiona pela coragem de manter um mistério narrativo e formal. Juntos, esses títulos desenham um roteiro oculto da Mostra: um festival que ainda aposta em diretores que não perderam a grinta, que insistem em desafiar o público e a própria fórmula do entretenimento.
Num mercado que frequentemente pede respostas prontas, o que vemos aqui são perguntas bem formuladas. E talvez seja essa a maior virtude: nos lembrar que o cinema pode continuar a ser o espelho do nosso tempo e, ao mesmo tempo, o reframe de uma realidade que se renova sempre que uma voz autoral decide não se render ao conforto.

