VAR nos Mundiais: correção inédita do amarelo por simulação levanta dúvidas sobre protocolo

VAR corrige amarelo por simulação em USA-Paraguay; decisão justa, mas suscita dúvidas sobre aplicação do protocolo da IFAB.

VAR nos Mundiais: correção inédita do amarelo por simulação levanta dúvidas sobre protocolo

RESUMO ✦

Sem tempo? A Lili IA resume para você

Gerando resumo com IA...

VAR nos Mundiais: correção inédita do amarelo por simulação levanta dúvidas sobre protocolo

Por Otávio Marchesini, Espresso Italia — O primeiro uso ostensivo do VAR com poderes ampliados nesta edição dos Mundiais ocorreu em USA-Paraguay e, embora tenha parecido justo no campo, suscita questões sobre a estrita observância do protocolo vigente. Aos 52 minutos, o árbitro holandês Danny Makkelie havia mostrado cartão amarelo ao lateral norte-americano Tim Ream. O centro do Video Assistant Referee em Dallas sinalizou um possível erro e conduziu o árbitro até o monitor. A partir da revisão, ficou claro que fora o paraguaio Miguel Almirón quem havia exagerado o contato; o cartão foi então anulado para o americano e atribuído a Almirón por simulação.

O episódio, no entanto, não é apenas uma curiosidade técnica: ilustra as tensões entre a busca por justiça imediata em campo e os limites normativos que regem a atuação do árbitro de vídeo. Como salientou a BBC Sport, o nó reside na interpretação das regras da IFAB, que permitem ao VAR intervir em casos de "erro de identidade" — ou seja, quando o árbitro "claramente sancionou o jogador errado". Mas essas regras também especificam que "o tipo de irregularidade não pode ser revisto" pelo vídeo.

Se a situação fosse uma segunda advertência que resultasse em expulsão, então cairia numa categoria tipificada para revisão. Aqui, contudo, houve uma mudança do comportamento punido — de um suposto jogo brusco para uma simulação. Especialistas consultados pela BBC Sport levantam dúvidas sobre se o responsável pelo VAR, o espanhol Del Cerro Grande, poderia legítima e formalmente alterar a natureza da infração sancionada.

Há ainda outro elemento procedimental: a interrupção da partida. Alguns entendem que o árbitro interrompeu o jogo após o reinício, quando o chamado ao monitor deveria ter ocorrido antes da retomada. Essa sequência temporal pode configurar erro de aplicação do protocolo mais do que mera controvérsia interpretativa — e, por extensão, impacta a percepção pública sobre a confiabilidade dos mecanismos de revisão.

Do ponto de vista institucional, o caso é revelador. Os Mundiais funcionam como laboratório de inovações regulamentares e tecnológicas; a adoção ampliada do VAR busca reduzir injustiças óbvias, mas também expõe lacunas na arquitetura normativa que sustenta a arbitragem moderna. A confiança do público no sistema refere-se tanto à capacidade técnica de corrigir erros quanto ao cumprimento rigoroso de protocolos que preservam a previsibilidade e a legitimidade das decisões.

Mais do que discutir se a decisão em si foi justa, importa perguntar como os reguladores e os operadores do vídeo definirão limites operacionais claros para evitar precedentes ambíguos. A abordagem correta passa por ajustes nas diretrizes da IFAB ou por maior clareza nos treinamentos dos centros de VAR, como o de Dallas, e entre os árbitros em campo. Só assim se equilibra a busca por justiça imediata com a necessidade de estabilidade normativa que dá sentido e aceitabilidade às intervenções tecnológicas no futebol.