Inter vira sobre o Como e garante vaga na final da Coppa Italia com dupla de Calhanoglu
Inter vira sobre o Como e avança à final da Coppa Italia com dupla de Calhanoglu e gol decisivo de Sucic.
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Inter vira sobre o Como e garante vaga na final da Coppa Italia com dupla de Calhanoglu
Por Otávio Marchesini — Em uma noite que reitera a natureza dramática e simbólica do futebol italiano, o Inter conquistou a vaga na final da Coppa Italia ao vencer o Como por 3 a 2 em San Siro. A partida consolidou um padrão recente entre as duas equipes: duas viradas a partir de desvantagem de 0-2 em apenas nove dias, um indicador tanto das fragilidades do sistema adversário quanto da capacidade dos nerazzurri de transformar tensão em resultado.
O dado imediato é objetivo: atrás no placar até a metade da segunda etapa, o Inter marcou três gols em vinte minutos e assegurou o passaporte para a final do dia 13 de maio, em Roma, onde enfrentará a vencedora de Atalanta e Lazio. Para além da estatística, a leitura precisa considerar os elementos que permitiram a reviravolta: decisões táticas do treinador, entradas pontuais no time e a qualidade técnica — sobretudo — de Calhanoglu.
O primeiro gol que reabriu a partida nasceu de uma típica jogada de protagonismo individual: Calhanoglu arriscou de fora da área, a trajetória foi alterada por um toque — descrito pelo estádio como imprevisível — e o chute tornou-se imparável. Pouco depois, já no sprint final da partida, o mesmo jogador inverteu a lógica ao marcar de cabeça, uma solução pouco frequente para o turco, que raramente aparece como referência aérea. Entre esses momentos, surgiu a intervenção decisiva do técnico Chivu ao promover mudanças sem ruído: a entrada de Diouf e, sobretudo, de Sucic, que se tornaram determinantes.
O gol da vitória tem a marca dessa conjugação. Calhanoglu serviu Sucic, o croata manteve equilíbrio em área disputada e finalizou com precisão, fechando o placar em 3 a 2. A cena é exemplar do futebol contemporâneo: veterania técnica se alia a energia juvenil e a orientação tática para inverter um risco que, por longos minutos, parecia um precipício.
O Como, jovem e ambicioso, não foi um mero figurante. O time de Cesc Fàbregas — mencionado com razão entre os protagonistas da noite — apresentou personalidade, pressionou alto e colocou dificuldades ao controle de bola dos donos da casa. Foi a organização e a coragem com que os lombardos atuaram que, paradoxalmente, escancararam a diferença: a experiência e a classe quando o jogo pede frieza e leitura coletiva.
Fàbregas reconheceu a entrega dos seus: “Grande prestazione e grande orgoglio, ma manca ancora qualcosina”, disse, resignado mas orgulhoso. O discurso sintetiza bem o que ocorreu em campo: um Como que cresce na identidade, porém com limitações para superar um rival enraizado em rotinas vencedoras e acostumado a administrar momentos de tensão.
Historicamente, a conquista da Coppa Italia completaria à temporada do Inter um duplo feito — o scudetto mais a taça — que, no futebol recente, tem exemplos notáveis mas raros; a memória remete ao ciclo de Mourinho. Mais importante que ligaduras históricas, entretanto, é a leitura institucional: clubes como o Inter preservam uma cultura de reação que serve de matrize para a construção de hegemonias sustentáveis, enquanto o Como representa a emergência de projetos regionais que desafiam o status quo.
Na noite de San Siro, venceu a combinação de técnica, veterania e decisões de banco. O resultado não apaga, porém, as perguntas que a temporada ainda coloca: como equilibrar ambição e estabilidade; como transformar partidas de risco em processos controláveis. O triunfo dá à equipe de Chivu uma chance de escrever um capítulo maior na narrativa recente do clube — resta ver se ele será escrito com ordem ou com as inevitáveis chamas de risco que o Inter parece, muitas vezes, apreciar.