Jessie Buckley, nova vencedora do Oscar: da luta contra os distúrbios alimentares à liberdade de comer sem 'dietas de atriz'

Jessie Buckley, nova vencedora do Oscar, fala sobre sua luta contra distúrbios alimentares e a liberdade de rejeitar dietas impostas pelo showbiz.

Jessie Buckley, nova vencedora do Oscar: da luta contra os distúrbios alimentares à liberdade de comer sem 'dietas de atriz'

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Jessie Buckley, nova vencedora do Oscar: da luta contra os distúrbios alimentares à liberdade de comer sem 'dietas de atriz'

Por Francesca Montelupo — Em um momento em que o corpo dos artistas muitas vezes vira mapa de transformações rápidas e dietas rígidas, a trajetória de Jessie Buckley soa como um retorno à terra e ao afeto. Recém-coroada com o Oscar de melhor atriz por sua atuação em Hamnet, a atriz irlandesa narra uma história íntima em que a relação com a comida nasce antes de qualquer cálculo profissional — e se reconstrói por meio da memória, da terapia e do respeito ao próprio corpo.

Nascida em 1989 no condado de Kerry e criada em Killarney, entre lagos e montanhas, Jessie cresceu numa casa onde a música e o teatro se misturavam aos cheiros da cozinha. A mãe era professora de canto e o pai era dono de um bar: uma infância de vozes e encontros. Mas a adolescência trouxe sombras — episódios de depressão e distúrbios alimentares que a fizeram perder o fio da própria morada corporal. “Por muito tempo eu não sabia como habitar meu corpo”, contou em entrevistas carregadas de candura.

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Foi a terapia que, pouco a pouco, a ensinou a cuidar-se. A atriz descreve a atuação como água purificadora — um ofício que limpou e ordenou emoções, sem no entanto transformar a alimentação em instrumento de performance. Ao contrário: ela sempre resistiu às pressões do showbiz para enquadrar o corpo em padrões e dietas estreitas.

No centro dessa reconciliação está o sabor do lar. Jessie fala, sem cerimônia, de um ritual simples e cheio de memória: pão integral irlandês com manteiga e geleia, acompanhado de uma xícara de chá preto forte. “É o sabor de casa”, diz, e ao pronunciar essas palavras devolve ao gesto de comer o caráter de uma oração doméstica. São pratos de cozinha humilde — pães, sopas, cozidos — que tecem o fio das lembranças e nutrem tanto o corpo quanto a alma.

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Quando o trabalho a leva aos sets, suas escolhas à mesa continuam a ser práticas e afetivas, distantes dos cardápios restritivos que tantas vezes parecem parte do figurino de uma atriz. A rotina alimentar começa com uma manhã simples: pão integral ou torrada com manteiga, às vezes geleia, e o inconfundível chá. A comida, para Jessie, não é cifra nem estratégia: é território de identidade, cuidado e resistência.

Ao falar com franqueza sobre seus episódios de distúrbios alimentares e a lenta cura que percorreu, Buckley lembra que a saúde mental é um elemento indissociável da vida profissional. Isso ressoa como um convite ao setor cinematográfico: que o ofício respeite o ritmo do corpo e da alma, que permita espaço para a paciência e a alimentação que nutre. É uma defesa da cucina povera como amparo — sopas reconfortantes, pães feitos à mão, a generosidade dos pratos que contam histórias.

Hoje, premiada e mais serena, Jessie reclama para si a liberdade de não se submeter a padrões. Sua narrativa é um lembrete terno de que a mesa pode ser lugar de aliança — entre passado e presente, entre profissão e bem-estar — e que o tempo, como um molho lento, apura as ideias e reconcilia a pele com a alma.

Em sua voz, a comida aparece sempre como memória e cura: simples, honesta, familiar. E assim, entre um prêmio e outro, Jessie Buckley nos ensina que a liberdade de comer sem rótulos é também um ato de coragem e amor-próprio.

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