Albânia não renovará acordo para centros de migrantes com a Itália, afirma chanceler Hoxha: 'Seremos UE'

Albânia anuncia que não renovará acordo com a Itália para centros de migrantes; chanceler Hoxha vincula decisão à entrada na União Europeia.

Albânia não renovará acordo para centros de migrantes com a Itália, afirma chanceler Hoxha: 'Seremos UE'

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Albânia não renovará acordo para centros de migrantes com a Itália, afirma chanceler Hoxha: 'Seremos UE'

Por Marco Severini — Em um movimento que redesenha, com discrição estratégica, mais um fragmento do tabuleiro migratório europeu, o ministro das Relações Exteriores da Albânia, Ferit Hoxha, declarou a Euractiv que o país não pretende prorrogar o acordo com a Itália relativo aos centros destinados a migrantes, atualmente instalados em Gjadër e Shëngjin. A decisão anunciada obedece a uma lógica de soberania e integração: com a adesão à União Europeia, o território albanês deixará de ser considerado extraterritorial em relação ao espaço comunitário.

O pacto entre Roma e Tirana, ratificado no início de 2024, tem duração de cinco anos e vigora até 2029. Segundo Hoxha, "o acordo é de cinco anos e não sou seguro de que haverá uma prorrogação. Em segundo lugar, não haverá prorrogação porque seremos membros da União Europeia". A declaração resume um cálculo político claro: a entrada na UE altera, de maneira irrevogável, os alicerces legais e geopolíticos que justificaram a existência desses centros.

As estruturas de Gjadër e Shëngjin são utilizadas pela Itália como pontos para alojar pessoas a quem foi negado o reconhecimento de proteção internacional, sobretudo aquelas resgatadas no mar. O modelo desses hubs em países terceiros foi impulsionado por vários governos europeus como resposta à pressão migratória: deslocar a gestão física dos fluxos para além das fronteiras nacionais, minimizando assim o efeito direto sobre o território doméstico.

O contexto institucional europeu também mudou recentemente: o Parlamento Europeu aprovou uma orientação favorável à criação de centros em países terceiros para facilitar os repatriamentos, com 389 votos a favor, 206 contra e 32 abstenções. Em Roma, essa linha encontrou defensores declarados. Contudo, a leitura de Tirana é geopolítica e jurídica ao mesmo tempo — um movimento que visa preservar a agenda de adesão à UE, prevista para culminar por volta de 2030, e evitar que o país mantenha, em solo que passará a ser europeu, dispositivos que implicariam responsabilidades e tensões jurídicas adicionais.

Do ponto de vista estratégico, é preciso interpretar a decisão albanesa como um reposicionamento no jogo dos equilíbrios regionais. A retirada tácita da possibilidade de renovação constitui um sinal para capitais europeus: a transição do país de parceiro extra-comunitário para membro pleno reconfigura responsabilidades de fronteira e obriga a uma redistribuição de tarefas na tectônica de poder migratória do sul da Europa. Em termos práticos, Roma e outros atores deverão recalibrar contrapartidas operacional-logísticas e elevar negociações bilaterais e multilaterais para evitar uma lacuna na gestão dos fluxos marítimos.

Em suma, a declaração de Hoxha marca um movimento previsível e, ao mesmo tempo, decisivo no tabuleiro diplomático: a Albânia fecha a porta à prorrogação não como gesto isolado, mas como parte de um projeto maior de incorporação europeia que altera regras, responsabilidades e limites. Resta ver como Roma e Bruxelas irão redesenhar as rotas de ação antes de 2029, quando, se mantida a linha atual, o arranjo de centros deverá ser reavaliado à luz dos novos contornos jurídicos e geopolíticos.