Beaufort: 900 anos de disputas e a nova bandeira no alto da fortaleza libanesa

Beaufort: nove séculos de disputas no sul do Líbano, da era cruzada à bandeira israelense ergue-se novamente sobre a fortaleza.

Beaufort: 900 anos de disputas e a nova bandeira no alto da fortaleza libanesa

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Beaufort: 900 anos de disputas e a nova bandeira no alto da fortaleza libanesa

Existem pontos no mapa cuja geografia converte-se em destino. O castelo de Beaufort, erguido sobre o desfiladeiro do rio Litani, no sul do Líbano, é um desses lugares: quase nove séculos de contestação e de mutações estratégicas que desenham, pedra por pedra, a história da região.

O sítio, originalmente conhecido como Shaqif Arnun — a rocha de Arnoun — passou às mãos do rei cruzado Folco d'Angiò em 1139. Foi ele quem erigiu ali uma obra que, em homenagem ao novo senhor franco, recebeu o nome de Beau Fort — a bela fortaleza — nome que persiste, ainda que a designação árabe Qalat al-Shaqif continue a ecoar na memória local.

Em 1190, após um cerco de dois anos, o general e sultão Saladino reconquistou a posição. Meio século depois, os cruzados retoman o rochedo e, em 1260, vendem-no aos Templários. A partida era, contudo, breve: em 1268 o sultão mameluco Baibars expugna Beaufort definitivamente, determinando o fim de sua utilidade como baluarte cruzado. Séculos de declínio se seguem, com danos adicionais causados pelos otomanos e por um terremoto em 1837.

Durante muito tempo refúgio de pastores, a fortaleza volta a assumir importância estratégica apenas nas décadas finais do século XX. Nos anos 1970, o local foi utilizado como base pela Organização para a Libertação da Palestina (Olp). Em 1982, com a invasão israelense do sul do Líbano, Beaufort tornou-se palco de um confronto que marcou gerações.

Na noite entre 5 e 6 de junho de 1982, unidades de elite, incluindo a brigada Golani, receberam a ordem de tomar o castelo. Optou-se por um ataque terrestre e não por bombardeio aéreo: uma decisão que revela a lógica do terreno e a importância simbólica do objetivo. O combate foi casa a casa, numa batalha de altura contra defensores entrincheirados nas posições superiores. As forças israelenses prevaleceram, mas não sem perdas — pelo menos seis mortos nas fileiras do Idf e cerca de uma dezena entre os combatentes da Olp.

Seguiu-se um período de ocupação israelense que durou 18 anos, pontuado por ataques da Olp e, posteriormente, de Hezbollah, até a retirada de Israel em maio de 2000. Antes de partir, tropas israelenses minaram partes da fortaleza, ação destinada a inviabilizá-la militarmente.

Após restaurações, Beaufort tornou-se um sítio histórico. Entretanto, a paz permaneceu frágil: em 2024, durante a guerra entre Israel e Hezbollah, a rocha voltou a ser alvo de ataques. Apesar do apelo do Unesco — que incluiu o local na lista provisória de patrimônios —, o conflito reavivou sua vocação militar. Em 2026, conforme anúncios oficiais, uma nova bandeira israelense passou a tremular sobre o promontório, selando mais um movimento decisivo no tabuleiro regional.

Beaufort é, assim, tanto um monumento quanto um indicador: suas pedras narram as camadas de uma tectônica de poder onde geografia e simbologia convergem. A fortaleza não é apenas um relicário do passado medieval; é um marcador presente de influências e de rivalidades que seguem a lógica de um tabuleiro — movimentos calculados, posições que se valorizam, riscos que reconfiguram alicerces diplomáticos.

Enquanto historiador e analista, observo que preservar a memória material de Beaufort é, também, preservar a possibilidade de interpretar os reajustes de poder que o cercam. A paz duradoura, para um lugar assim, depende menos de decretos e mais de um redesenho mais amplo das fronteiras invisíveis da região.