Fatou Bensouda acusa Mossad de pressão e chantagem por investigações da CPI sobre Gaza e Cisjordânia
Fatou Bensouda diz ter sido ameaçada e chantageada pelo Mossad por investigações da CPI sobre crimes de guerra em Gaza e Cisjordânia.
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Fatou Bensouda acusa Mossad de pressão e chantagem por investigações da CPI sobre Gaza e Cisjordânia
Por Marco Severini — Em uma declaração sóbria porém contundente na Haia, a ex-procuradora-chefe da Corte Penal Internacional (CPI), Fatou Bensouda, afirmou ter sido sistematicamente ameaçada e chantageada pelo serviço de inteligência israelense Mossad ao longo de mais de uma década. Segundo Bensouda, a campanha visou obstruir as investigações da Corte sobre possíveis crimes de guerra cometidos por Israel em Gaza e na Cisjordânia.
O relato foi apresentado com ênfase institucional: a antiga procuradora descreveu pressões persistentes que, progressivamente, teriam passado de tentativas de persuasão a ameaças diretas e tentativas de intimidação. No centro das acusações figura o ex-chefe do Mossad, Yossi Cohen, apontado por Bensouda como coordenador de uma campanha clandestina que teria incluído contatos pessoais — em cidades como Mônaco e Nova York — realizados, segundo fontes, em caráter de mensageiro extraoficial do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu.
Entre os episódios relatados estão operações de vigilância contra o marido da ex-procuradora, campanhas de difamação e um incidente pelo qual homens não identificados deixaram, em 2015, um envelope com 500 dólares diante de sua residência — gesto interpretado como aviso. Bensouda afirma ter comunicado esses fatos às autoridades neerlandesas, mas lamentou a ausência de proteção adequada e a falta de apoio político substancial por parte dos Estados-membros da CPI. “Senti-me sozinha e sem suporte”, declarou.
O contexto dessas revelações é um tabuleiro de poder em movimento: enquanto a CPI procede com investigação sobre alegadas violações em territórios ocupados, a reação de Israel, segundo a narrativa exposta, teria assumido uma dimensão de pressão extrajudicial. Em paralelo, órgãos internacionais discutem listas e responsabilizações — incluindo menções a Israel em relatórios sobre violência sexual — e o tribunal tem solicitado novos mandados de prisão contra figuras como Smotrich, Ben-Gvir, a ministra Orit Strock e ainda dois oficiais das Forças de Defesa de Israel cuja identidade permanece confidencial.
Do ponto de vista estratégico, a acusação de Bensouda representa um movimento significativo no xadrez diplomático: não se trata apenas de uma disputa jurídica, mas de um combate por narrativas e por legitimidade institucional. A presunção de independência da investigação internacional se choca com os alicerces frágeis da diplomacia quando atores estatais recorrem a meios de intimidação para moldar o curso dos procedimentos.
A ex-procuradora reforçou que as pressões não a intimidaram a ponto de silenciar as investigações, mas evidenciou o custo pessoal e institucional do processo. A sua denúncia lança luz sobre métodos que, se confirmados, desenhariam um redesenho discreto das fronteiras de influência: ações paralelas para neutralizar mecanismos de prestação de contas internacionais, numa tentativa de preservar imunidades e zonas de impunidade.
Em termos práticos, resta à comunidade internacional — e aos Estados-membros da CPI — avaliar a veracidade das alegações, reforçar mecanismos de proteção de magistrados e procuradores e considerar as implicações estratégicas de um eventual padrão sistemático de intimidação. No tabuleiro global, cada movimento deixa uma marca; a acusação de Bensouda coloca, à vista de todos, uma peça-chave sob escrutínio.