Relatório revela uso de Oxygen Forensics em projetos da UE apesar de ligação secreta com a Rússia
Documento revela ligação oculta entre Oxygen Forensics e interesses russos em projetos da UE; riscos à segurança forense europeia.
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Relatório revela uso de Oxygen Forensics em projetos da UE apesar de ligação secreta com a Rússia
Por Marco Severini — A análise de documentos consultados por Politico.eu expõe um movimento delicado no tabuleiro da segurança digital: a empresa oficialmente estadunidense Oxygen Forensics, especializada em extração e análise de dados de dispositivos, foi acusada pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos de ser, na prática, controlada por interesses russos. Esse dado, longe de ser apenas jurídico, redesenha linhas invisíveis na tectônica de poder que sustenta a cooperação forense entre a União Europeia e fornecedores privados.
Os documentos mostram que a tecnologia da Oxygen Forensics foi integrada a pelo menos dois projetos europeus financiados pela UE. O primeiro, EVIDENCE (European Informatics Data Exchange Framework for Courts and Evidence), recebeu mais de 1,9 milhões de euros entre 2014 e 2016 e consultou a empresa sobre métodos para gerir e intercambiar provas digitais no âmbito penal. Essa participação abriu portas para uma rede que envolvia órgãos como Europol, Eurojust e a unidade de computação forense do Escritório Europeu de Luta Antifraude.
O segundo projeto, INSPECTr, apoiado pelo programa Horizon 2020, foi desenhado para permitir que forças policiais europeias consolidassem e analisassem evidências digitais produzidas por ferramentas diversas. Uma das funcionalidades centrais do software desenvolvido por esse consórcio foi justamente padronizar dados extraídos com sistemas como os da Oxygen Forensics, facilitando o acesso e a análise por investigadores que utilizam plataformas alternativas.
Embora ambos os programas tenham iniciado bem antes da invasão em larga escala da Ucrânia pela Rússia em fevereiro de 2022 e das subsequentes sanções europeias, o projeto INSPECTr manteve atividades até 2023, e a Oxygen permanece listada nas páginas oficiais de ambos os projetos. Em seu site institucional — agora inacessível — a empresa mencionava a comissão europeia como cliente.
Posteriormente, as ferramentas da Oxygen Forensics foram certificadas e adquiridas por polícias nacionais em vários países europeus, incluindo Alemanha, Espanha, Itália e Polônia. Em evidência prática, um documento técnico de abril de 2026 da Procuradoria da República de Sassari, na Itália, inclui explicitamente a Oxygen Forensics entre os sistemas reconhecidos para extração e análise de dados de dispositivos móveis pela polícia judiciária.
Do ponto de vista estratégico, trata-se de um problema de cadeia de suprimentos de segurança: a confiança depositada em um fornecedor que operou dentro do ecossistema europeu cria vulnerabilidades que transcendem o mero litígio societário. Em termos diplomáticos e de segurança, é um movimento que exige respostas coordenadas — auditorias forenses independentes, revisão de contratos de aquisição, e protocolos reforçados de verificação de origem de tecnologia. No tabuleiro geopoliticamente sensível da tecnologia forense, cada peça mal identificada pode comprometer jogadas decisivas na investigação criminal e na proteção de segredos estatais.
Recomendo que os Estados-membros da UE considerem, com a gravidade que o caso impõe, dois passos imediatos: avaliação técnica independente dos sistemas em uso e revisão normativa para impedir contratos críticos com fornecedores de propriedade ou influência estrangeira não transparentes. A arquitetura da confiança pública e institucional não pode depender de alicerces frágeis.
Em última análise, esta não é apenas uma história de propriedade empresarial clandestina; é um alerta sobre como as linhas de influência e controle podem ser reconfiguradas por meio da tecnologia. A gestão prudente desse risco exigirá, assim como num jogo posicional de xadrez, antecipação, paciência e medidas defensivas bem calibradas.

