Bloqueio de internet no Irã oculta número real de vítimas em conflito, dizem ONGs
Bloqueio de internet no Irã dificulta verificação do número real de vítimas; ONGs relatam estimativas e impedimentos para documentação independente.
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Bloqueio de internet no Irã oculta número real de vítimas em conflito, dizem ONGs
Por Marco Severini — A recente paralisação das comunicações revela um movimento decisivo no tabuleiro geopolítico do Oriente Médio: o Estado iraniano restringiu o acesso externo e, com isso, tornou-se quase impossível verificar de forma independente o verdadeiro balanço de mortos. O governo persiste sem atualizar os dados oficiais sobre as vítimas, e as organizações de direitos humanos no exterior enfrentam um bloqueio informativo crônico.
O último relatório público do Ministério da Saúde do Irã refere-se ao dia 8 de março — nono dia do conflito — quando estimou cerca de 1.200 civis mortos em supostos ataques aéreos estadunidenses e israelenses pelo território. Desde então, contudo, não houve um levantamento geral publicado que confirme o avanço das hostilidades ou o custo humano real.
As organizações internacionais que tradicionalmente funcionam como olhos e ouvidos dentro da República Islâmica — apesar da forte censura estatal — estão hoje paralisadas pela ausência de conectividade. O quase total corte das ligações entre a rede iraniana e a internet global transformou a coleta de dados em tarefa de alta complexidade: é difícil validar, cruzar e consolidar relatos quando as rotas de informação são deliberadamente interrompidas.
Com sede nos Estados Unidos, a Human Rights Activists News Agency — Hrana —, que teve papel central na documentação das mortes durante as manifestações antigovernamentais de janeiro, estima agora um total de 1.407 civis mortos, entre eles 214 crianças. "Esta é uma cifra que consideramos, na prática, um piso muito conservador", afirmou Skylar Thompson, vice-diretora da Hrana. "A velocidade e a dispersão dos alvos tornam impossível documentar tudo com a mesma rapidez."
O balanço de infraestruturas fornecido pela Crescente Vermelho iraniana registra danos expressivos: 61.555 residências, 19.000 estabelecimentos comerciais, 275 centros médicos e quase 500 escolas afetadas — números que ressaltam a dimensão civil do conflito, ainda que não correspondam a um censo de óbitos atualizado.
Há desconfiança sistemática em relação aos dados oficiais, alimentada pela repressão sangrenta das manifestações de janeiro. Naquela ocasião, Teerã admitiu cerca de 3.000 mortos — majoritariamente agentes de segurança — enquanto pesquisadores e ativistas no exterior chegaram a estimar entre 7.000 e 35.000 vítimas em operações de repressão indiscriminada. "A República Islâmica tem um histórico de não publicação ou coleta falha de dados", observa Awyar Shekhi, da ONG norueguesa Hengaw.
Desde 28 de fevereiro, quando se intensificaram as hostilidades, vigora um bloqueio virtual quase total. Autoridades iranianas perseguiram e prenderam indivíduos que recorreram, de forma não autorizada, a canais digitais para enviar informações ao exterior — por vezes com acusações de espionagem. Tornou-se também praticamente impossível realizar chamadas telefônicas ao Irã a partir do exterior, transformando linhas telefônicas em rotas cortadas no mapa da informação.
Essa combinação de silêncio oficial, bloqueio técnico e intimidação recorre a mecanismos clássicos de controle: redes de informação são o tabuleiro onde se decide a narrativa, e hoje os alicerces da diplomacia humanitária encontram-se fragilizados por uma tectônica de poder que privilegia o controle sobre a transparência. Até que canais seguros sejam restabelecidos e verificações independentes possam se mover livremente, o número real de vítimas permanecerá envolto em incerteza.
Marco Severini, Espresso Italia