Board of Peace apresenta plano de 8 meses para desarmar Hamas e reorganizar Gaza
Plano de 8 meses do Board of Peace para desarmar Hamas em Gaza: cessar-fogo, desmantelamento de túneis e retirada do IDF até acordo de 10/10/2025.
RESUMO ✦
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Board of Peace apresenta plano de 8 meses para desarmar Hamas e reorganizar Gaza
Por Marco Severini — Em um movimento que redesenha linhas de influência e testa os alicerces da diplomacia internacional, o Board of Peace apresentou um plano operacional de oito meses para desarmar o Hamas e demais milícias na Gaza Strip. A proposta, conduzida pelo Alto Representante Nickolay Mladenov, articula um roteiro em fases que vai do imediato cessar-fogo humanitário ao desmantelamento de infraestruturas subterrâneas e culmina com o recuo das forças israelenses até os limites do acordo de 10 de outubro de 2025.
É indispensável sublinhar a peculiar arquitetura política por trás do plano: o Board of Peace é uma entidade controversa que, segundo documentos internos e comunicados oficiais, coloca Donald Trump como presidente vitalício. O acesso à organização se dá por convite e envolve um aporte financeiro simbólico e elitista — segundo relatos, a porta de entrada administrativa contempla o pagamento de US$ 1 bilhão — consolidando um executivo político-financeiro sem representação palestina eleita.
O projeto apresentado busca criar, em primeira instância, uma janela de estabilidade: um cessar-fogo inicial de quinze dias acompanhado por medidas humanitárias urgentes para minimizar o sofrimento civil e permitir o fluxo de ajuda. Essa etapa é pensada como a fundação necessária — na analogia arquitetônica — para qualquer reconstrução subsequente.
Na sequência operativa, dentro dos primeiros 90 dias, o plano prevê a remoção de armamento pesado e o desmantelamento dos túneis atribuídos ao Hamas, considerados parte integrante de sua capacidade ofensiva. A intenção declarada é eliminar as infraestruturas militares subterrâneas que funcionam como nervo estratégico das milícias, reduzindo assim a capacidade de retomada de hostilidades em maior escala.
Do ponto de vista militar, o plano dispõe uma força de estabilização multinacional — a denominada Força de Estabilização — estimada em cerca de 20 mil soldados, além de aproximadamente 12 mil agentes destacados por Egito e Jordânia. A Gaza seria segmentada em cinco zonas de influência, cada qual sob a responsabilidade de contingentes distintos (menção a países como Kosovo, Cazaquistão, Albânia, Marrocos e Indonésia foi levantada nas discussões iniciais), num desenho que lembra um tabuleiro onde cada quadrante recebe um subtipo distinto de controle e gestão.
O cronograma culmina com o recuo das Forças de Defesa de Israel (IDF) para as fronteiras estipuladas no cessar-fogo de 10 de outubro de 2025, um movimento que, se executado, implica um redesenho de responsabilidades de segurança e governança local. Paralelamente, o projeto contempla um ambicioso plano imobiliário e de reconstrução — descrito por críticos como o maior da história — com arranha-céus e complexos hoteleiros no estilo Dubai/Doha. Fontes do plano indicam, entretanto, que o projeto urbanístico não prevê espaço político para a inclusão palestina, o que já despertou críticas sobre a sustentabilidade política da iniciativa.
Como analista, vejo este plano como um movimento decisivo no tabuleiro geopolítico: embora proponha medidas técnicas viáveis — contenção, desarmamento e estabilização — ele também carrega um forte componente de reconfiguração de poder. A ausência de representantes palestinos eleitos no organograma e a centralidade de interesses privados e de atores estrangeiros criam alicerces frágeis para uma paz duradoura. Em termos de Realpolitik, trata-se de reconciliar segurança imediata com legitimidade política — tarefa tão delicada quanto mover a rainha no momento errado.
O sucesso do roteiro dependerá, portanto, de duas variáveis críticas: a implementação rigorosa das fases de desarmamento e a habilidade de transformar a estabilização militar em governança legítima, capaz de incorporar vozes locais. Sem essa transição, a iniciativa corre o risco de ser um novo desenho de fronteiras invisíveis — tecnicamente sofisticado, politicamente insustentável.
Marco Severini, Espresso Italia — Observador de Estratégia Internacional