Caso Plus Ultra: Zapatero é interrogado por três horas e tem passaporte retido pela Justiça espanhola

Zapatero foi interrogado por três horas no caso Plus Ultra; Justiça retira seu passaporte e investiga pagamentos, joias e possíveis operações internacionais.

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Caso Plus Ultra: Zapatero é interrogado por três horas e tem passaporte retido pela Justiça espanhola

Por Marco Severini — Em um movimento que altera a tectônica de poder na política espanhola, o ex‑primeiro‑ministro José Luis Rodríguez Zapatero foi submetido a um interrogatório de aproximadamente três horas perante o juiz da Audiencia Nacional, José Luis Calama. A sessão, iniciada às 9:12 e concluída por volta das 12:30, insere no centro do tabuleiro institucional um veterano dos corredores do poder.

Zapatero, que presidiu o governo espanhol entre 2004 e 2011, é investigado no âmbito do chamado caso Plus Ultra, relacionado ao empréstimo público de 53 milhões de euros concedido à companhia aérea homônima em 2021, na fase aguda da pandemia de Covid‑19. Segundo a hipótese acusatória, o ex‑chefe do Executivo figura como o presumível «vertice» de uma rede de influências destinada a obter vantagens para terceiros em troca de comissões, enquadrada em indícios de organização criminosa, tráfico de influências, lavagem de dinheiro e falsidade documental.

Durante a audiência, Zapatero negou ter exercido “qualquer influência” para favorecer a Plus Ultra, conforme relatam fontes judiciais citadas pela imprensa ibérica. Em paralelo, a Procura anticorrupção solicitou medidas cautelares: o retirada do passaporte por risco de fuga, a obrigatoriedade de comparecer a cada 15 dias para assinatura judicial e a proibição de deixar o país. A acusação popular, exercida pelo Partido Popular, chegou a requerer custódia preventiva também por risco de fuga.

O inquérito concentra-se ainda em pagamentos direcionados ao círculo do ex‑presidente. Cita‑se transferência de 490.780 euros à empresa Analisis Relevante, controlada pelo empresário Julio Martínez Martínez, amigo de Zapatero, e 239.755 euros à sociedade Wathefaw S.L., vinculada às filhas do ex‑líder — estas últimas, segundo a investigação, não constam como investigadas. Há igualmente apurações sobre supostas operações internacionais milionárias envolvendo petróleo venezuelano, ouro, moedas e a eventual criação de uma offshore em Dubai, pontos que Zapatero foi chamado a esclarecer perante o juiz.

Outro núcleo crítico do procedimento refere‑se a um tesouro de joias, avaliado em cerca de 1,3 milhão de euros, localizado em 19 de maio em um cofre no escritório do ex‑primeiro‑ministro. O magistrado Calama abriu um processo separado para apurar a origem desses bens, hipótese que pode configurar crimes fiscais e contrabando. Zapatero alegou que as joias derivam de heranças familiares e de lembranças recebidas em viagens.

Ao final do interrogatório, o ex‑presidente divulgou uma nota afirmando: “Restituirei a confiança de quem hoje duvida da minha inocência”. Referiu ainda que passou 29 dias em silêncio preparando este momento e os desdobramentos futuros. A declaração representa um gesto público calculado — um lance claro no tabuleiro político, destinado a reconstruir centros de gravidade em torno de sua imagem.

Do ponto de vista estratégico, o episódio é singular: trata‑se do primeiro ex‑chefe de governo a ser formalmente interrogado em uma investigação penal na Espanha democrática, um fato que redesenha fronteiras institucionais invisíveis e impõe perguntas sobre a resiliência dos alicerces da diplomacia interna do país. Resta observar como esta fase processual, entre medidas cautelares e investigações econômicas transnacionais, influenciará o equilíbrio entre forças partidárias, a capacidade de mobilização pública e a projeção internacional de Madrid.

Em termos pragmáticos, a investigação atravessa múltiplos tabuleiros — jurídico, político e geoeconômico —, e cada movimento subsequente poderá ser decisivo para definir não apenas o destino pessoal de Zapatero, mas a arquitetura das relações de poder na Espanha contemporânea.