Ceuta e a rede invisível: como a desinformação ligada à Rússia alimentou narrativas de extrema-direita

Análise: contas ligadas à Rússia amplificaram narrativas de extrema-direita em Ceuta, combinando propaganda e informação logística nas redes sociais.

Ceuta e a rede invisível: como a desinformação ligada à Rússia alimentou narrativas de extrema-direita

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Ceuta e a rede invisível: como a desinformação ligada à Rússia alimentou narrativas de extrema-direita

Por Marco Severini — Em um movimento que lembra um lance estratégico no tabuleiro da política internacional, uma análise recente de 411, organização especializada no combate à desinformação, aponta que contas ligadas ao exército russo ampliaram narrativas de extrema-direita durante a crise migratória em Ceuta, alcançando mais de 500.000 pessoas nos primeiros dias do episódio.

O estudo, que varreu cerca de 4,5 milhões de publicações em redes sociais, descreve uma operação de proliferação rápida e multilingue: narrativas tipicamente de ultra-direita foram disseminadas em sete idiomas, atingindo mais de 720.000 visualizações em apenas seis horas no dia 1º de agosto. O padrão e o ritmo dessa campanha indicam, nas palavras de observadores, algo além do acaso — aparentando uma estrutura ou mecanismo permanente de influência.

O contexto foi uma crise concreta: segundo relatos, na noite anterior ao dia 1º de agosto, cerca de 49.000 pessoas tentaram atravessar o limite entre o Marrocos e a pequena enclave espanhola de Ceuta. Ao longo de vários dias, o fluxo totalizou aproximadamente 72.000 migrantes. A cobertura e a narrativa pública foram, em grande medida, enquadradas em termos de um “assalto” coordenado, muitas vezes sugerindo cumplicidade das autoridades locais e incorporando teorias conspiratórias com matizes islamofóbicos e, por vezes, antissemitas.

Segundo a análise da 411, além das mensagens de panificação ideológica, houve um forte componente operacional nas redes: informações logísticas sobre como atravessar a fronteira circulavam abundantemente na seção de comentários de vídeos virais sobre Ceuta. Esses trocas, ainda que parecessem espontâneas e provenientes de pequenos perfis individuais, contribuíram para a mobilidade efetiva de jovens marroquinos que acreditaram — ou foram levados a acreditar — que o acesso estava aberto.

O fenômeno observável combina duas facetas perigosas: de um lado, a propaganda e a narrativa orientadas a radicalizar percepções sociais na Europa; de outro, um fluxo de informação prática que facilita movimentos de massa. Como advertiu Saman Nazari, pesquisador principal da Alliance4Europe, há um padrão recorrente em que crises desse tipo escalonam com regularidade por todo o continente — uma sequência de episódios que é difícil explicar como mera coincidência.

Ao mesmo tempo, relatórios mencionam que contas de grupos de extrema-direita incentivavam a presença de nacionalistas em Ceuta, convocando “patalhas” e vigílias para patrulhar estabelecimentos e residências. Esse tipo de incitamento, por sua vez, alimenta tensões que podem corroer os alicerces frágeis da diplomacia local e regional, forçando governos a responderem não apenas a um movimento migratório, mas a uma disputa narrativa que redesenha linhas de influência no espaço público.

Como analista, observo que o episódio de Ceuta é sintomático de uma tectônica de poder mais ampla: atores estatais e paramidiáticos testam limites, exploram fissuras sociais e instrumentalizam plataformas digitais para avançar agendas político-estratégicas. A resposta exige tanto medidas de contra-influência — desmontando narrativas e expondo fontes — quanto políticas públicas sensíveis às dinâmicas de mobilidade e segurança.

Em suma, o que ocorreu em Ceuta foi mais do que um fluxo migratório e mais do que uma onda de posts nas redes: foi um movimento deliberado no tabuleiro geopolítico, onde a combinação de logística improvisada e propaganda coordenada expõe a sofisticação crescente das operações de desinformação na Europa contemporânea.