Chefe do Pentágono cita Pulp Fiction em oração e confunde trecho com a Bíblia
Chefe do Pentágono cita trecho de Pulp Fiction acreditando ser Ezequiel 25:17; equívoco ocorreu durante oração relacionada ao resgate de um aviador no Irã.
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Chefe do Pentágono cita Pulp Fiction em oração e confunde trecho com a Bíblia
Por Marco Severini — Em um gesto que desenha um curioso movimento no tabuleiro da imagem pública, o chefe do Pentágono, Pete Hegseth, pronunciou durante uma cerimônia de oração no edifício do Departamento de Defesa uma passagem que acreditava ser bíblica, mas que na verdade é uma adaptação cinematográfica do filme Pulp Fiction (1994), de Quentin Tarantino.
Ao relatar uma conversa com o almirante Brad Cooper, comandante das forças americanas envolvidas em operações no Irã, Hegseth buscou realçar a influência de convicções religiosas nas decisões do Pentágono. Em seguida, apresentou como se fosse um versículo sagrado o que chamou de oração recitada por uma unidade identificada como Sandy 1, que participou do resgate de um aviador abatido atrás das linhas inimigas no Irã no início do mês.
Hegseth referiu-se ao trecho como «Csar 25:17, que eu creio que remete a Ezequiel 25:17», e leu em voz alta o parágrafo adaptado para o contexto do resgate: 'O caminho do aviador abatido é minado por todos os lados pelas injustiças dos egoístas e pela tirania dos homens maus. Bem-aventurado aquele que, em nome do companheirismo e do dever, guia os perdidos pela vale da escuridão, porque ele é verdadeiramente o guardião de seu irmão e aquele que recupera os filhos perdidos. E derramarei sobre ti grande vingança e ira furiosa contra aqueles que tentam capturar e destruir meu irmão; e saberás que meu nome é Sandy 1 quando eu desencadear minha vingança sobre ti. Amém'.
O original bíblico de Ezequiel 25:17, nas traduções canônicas, é bem mais sucinto: 'Farei sobre eles grande vingança com castigos furiosos; e saberão que eu sou o Senhor quando exercer a minha vingança sobre eles.' A versão prolixa e moralizante que Hegseth citou é, na realidade, uma reescrita dramatúrgica atribuída ao personagem Jules, interpretado por Samuel L. Jackson, no roteiro de Pulp Fiction, trabalho conjunto de Quentin Tarantino e Roger Avary.
No filme, Jules pronuncia uma invocação que mistura elementos bíblicos e invenção literária, proposta para conferir intensidade e legitimidade moral a um assassino de profissão. A passagem usada por Hegseth reproduz esse tom, mas com modificações destinadas a justificar o clima de missão e camaradagem — caso do acréscimo de referências ao aviador abatido e ao codinome Sandy 1. É plausível que o secretário tenha percebido as alterações contextuais sem, contudo, identificar a origem cinematográfica: como no xadrez, nem todo movimento traça a origem exata de sua estratégia; algumas jogadas simplesmente soam convincentes.
O episódio expõe duas camadas relevantes. A primeira é de imagem institucional: a confusão entre um trecho ficcional e um texto sagrado fragiliza a autoridade simbólica de quem invoca a fé em público, sobretudo quando o cenário é o centro da defesa nacional. A segunda é geopolítica e cultural: demonstra como referências populares — cinema, literatura, retórica militar — entram na tessitura das narrativas oficiais, alterando o tom da diplomacia e da política de defesa.
Para além do equívoco literal, o incidente sugere um redesenho discreto das fronteiras simbólicas entre religião, retórica militar e cultura popular. Em termos de estabilidade e percepção internacional, movimentos como esse reconfiguram, ainda que sutilmente, os alicerces da diplomacia e da autoridade — e exigem reparos comunicacionais precisos se se deseja manter a coesão do discurso estratégico.
Em suma: não se trata apenas de um erro de citação. É um lapso que revela como, na tectônica do poder contemporâneo, as fontes de legitimidade se misturam e, às vezes, se confundem. O resultado público é uma lição prática de cautela retórica para quem ocupa posições nas quais cada palavra é um movimento no tabuleiro.