Comitês levam à UE suspeitas de procedimento irregular no termovalorizador de Santa Palomba
Comitês pedem à UE investigação sobre irregularidades no licenciamento do termovalorizador de Santa Palomba e apontam conflito de interesses e falhas na VIA.
RESUMO ✦
Sem tempo? A Lili IA resume para você
Comitês levam à UE suspeitas de procedimento irregular no termovalorizador de Santa Palomba
Por Marco Severini — Em um movimento que altera peças no tabuleiro institucional, a União dos Comitês contra o Incinerador protocolou uma carta datada de 17 de março de 2026 à Comissão Petições do Parlamento Europeu, peça vista em primeira mão pela AGI, reabrindo um confronto técnico e jurídico em torno do projeto do termovalorizador de Santa Palomba.
No documento, os cidadãos denunciam, com linguagem técnica e precisão documental, uma série de falhas no procedimento autorizativo. Entre os pontos centrais está a alegação de que a Avaliação de Impacto Ambiental (VIA) do empreendimento não cumpre os requisitos do Anexo IV da diretiva 2014/52/UE. Os comitês ressaltam a ausência de análise de alternativas, incluindo a opção zero e outras localizações; a falta de avaliação dos impactos cumulativos, especialmente à luz da proximidade com a antiga lixeira de Roncigliano e com quatro estabelecimentos classificados ao risco segundo a diretiva Seveso; e a inexistência de uma avaliação climática, apesar das estimativas de emissões de CO2 não inferiores a 400 mil toneladas por ano.
A carta, assinada por Alessandro Lepidini — ex-assessor de Meio Ambiente do IX município e figura central do movimento que deixou o cargo em protesto — solicita ao presidente da comissão de petições, Rzoca, uma nova audiência e o início de verificações formais por parte da Comissão Europeia. O tom é de quem busca sustentar uma contenciosa técnica com argumentos capazes de deslocar a tábua das decisões administrativas.
Um trecho particularmente incisivo refere-se ao artigo 9-bis da diretiva VIA, que obriga os Estados-membros a prevenir conflitos de interesses nas autoridades competentes. Os comitês lançam suspeitas sobre a posição do prefeito Roberto Gualtieri, anunciando que em breve apresentarão um dossiê específico. Segundo a denúncia, o "Comissário extraordinário Gualtieri" acumulária papéis que, na análise dos cidadãos, o colocariam simultaneamente como comitente, autoridade competente e acionista majoritário da empresa líder do consórcio proponente — um arranjo que minaria a neutralidade decisória.
Outro ponto sensível é a aplicação da via administrativa denominada PAUR, que unificou VIA e AIA. Os comitês sustentam que a ordem do Comissário teria reduzido os prazos previstos, deixando apenas 15 dias para a AIA — um lapso temporal considerado incompatível com a exigência de "prazos adequados" prevista na diretiva de emissões industriais.
Por fim, o documento aponta irregularidades em uma adjudicação de contrato de 11 milhões de euros, supostamente realizada sem prévia publicação do aviso e com um desconto anômalo de 71%, justificado, segundo os responsáveis, pela cláusula de "extrema urgência". Trata-se de elementos que, nas peças do tabuleiro legal, podem transformar questões administrativas em litígios de alto impacto político e ambiental.
Do ponto de vista estratégico, a peça levada a Bruxelas representa um movimento destinado a internacionalizar a disputa, forçando a ativação de mecanismos de supervisão comunitária que, se acionados, redesenhariam as fronteiras invisíveis da tomada de decisão local. Resta ver se a Comissão de Petições aceitará a solicitação de audiência e quais seriam os próximos lances neste embate entre soberania administrativa municipal e os alicerces jurídicos da União Europeia.


