Coreia do Sul: desaparecimento em massa de cães de criação levanta suspeitas de abate e consumo antes da proibição
Desaparecimento em massa de cães na Coreia do Sul levanta suspeitas de abate antes da proibição; falta transparência sobre destino dos animais.
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Coreia do Sul: desaparecimento em massa de cães de criação levanta suspeitas de abate e consumo antes da proibição
Por Marco Severini — Em um movimento que redesenha, no silêncio, as linhas de influência sobre práticas culturais e econômicas, a Coreia do Sul enfrenta um episódio perturbador: milhares de cães criados para consumo desapareceram, e há indícios de que muitos já foram abatidos e consumidos antes da vigência plena da nova legislação.
A controvérsia remonta à aprovação, em janeiro do ano passado, de uma lei que determina a proibição definitiva do criação, do abate e da comercialização de cães para alimentação a partir de 2027. A execução das sanções, porém, vai acelerar: a partir do próximo fevereiro, quem descumprir o interdito poderá sofrer até três anos de prisão. Frente a esse prazo e ao redesenho das regras do tabuleiro, produtores teriam optado por uma retirada acelerada e, segundo depoimentos, indiscriminada dos animais.
De acordo com dados oficiais do Ministério da Agricultura, a redução foi vertiginosa: se em 2024 havia, nas criações destinadas ao mercado alimentício, entre 400 mil e 450 mil indivíduos, hoje restariam apenas cerca de vinte — um número que diz mais à respeito da metamorfose do setor do que de sua transparência. Em maio, o ministério registrou que 82% das instalações (1.265 do total) já solicitaram encerramento.
Ativistas e jornalistas têm documentado práticas de abate frequentemente brutais: eletrocussão, enforcamento e espancamento. No sítio de Pyeongtaek, repórteres da AFP identificaram eletrodos abandonados, gaiolas oxidadas e crânios de animais. Shin Joo-woon, da associação KARA, descreveu cenas de extremo sofrimento: "Frequentemente permaneciam conscientes enquanto seus órgãos queimavam" e "os demais animais assistiam à cena".
O governo tentou facilitar a transição com subsídios de até 600 mil won por cão entregue (equivalente a cerca de 340 euros), mas não esclareceu o destino final dos animais. A burocracia de Seul, conforme relato de um inspetor ao veículo AFP, limita-se a verificar a ausência dos cães nas instalações antes de liberar o ressarcimento, sem fiscalizar o que tenha sido feito aos animais.
Ex-criadores e ONGs denunciam que muitos animais foram simplesmente eliminados. Ju Yeong-bong, pastor e criador desde 1994, classifica o veto como um "traço" imposto por motivações políticas, sem diálogo nem medidas de apoio adequadas à subsistência dos produtores. Dados parciais de fevereiro apontavam apenas 623 adoções de animais oriundos desses criadouros, com cerca de 500 encaminhados para abrigos; para representantes da ONG CARE, liderada por Kim Young-hwan, a ausência de campanhas públicas de adoção indica que uma parcela significativa dos animais foi suprimida.
Há, no entanto, sinais de conversão: diversos operadores tentam reorientar suas atividades. Mas o panorama deixa questões de ordem ética e estratégica. Do ponto de vista da estabilidade social e da imagem internacional, a forma como um Estado administra a transição entre práticas culturais enraizadas e normas contemporâneas de bem-estar animal é um movimento decisivo no tabuleiro da diplomacia pública.
Esta é uma história onde a tectônica de poder, os alicerces frágeis da burocracia e as rotas ocultas do mercado se entrelaçam. É imperativo que as autoridades esclareçam o destino dos cães desaparecidos, que mecanismos de responsabilização sejam ativados e que programas transparentes de reconversão e adoção sejam instituídos, para que a transição não se realize às custas do silêncio e do sofrimento.
Marco Severini — Espresso Italia, análise geopolítica e estratégica.