Cuba mergulha em novo blackout enquanto governo culpa 'morsa' dos EUA
Cuba sofre novo blackout e culpa os EUA por bloqueio de combustíveis; reformas econômicas ainda não aliviam crise energética e social.
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Cuba mergulha em novo blackout enquanto governo culpa 'morsa' dos EUA
Cuba voltou a enfrentar um apagão generalizado na madrugada entre domingo e segunda-feira, em mais um capítulo de uma crise energética que se aprofundou nos últimos anos. A estatal Unión Eléctrica (UNE) informou nas redes sociais sobre uma “desconexão total” da rede — episódio que se soma a uma sequência de interrupções, com relatos de até cerca de 30 horas sem eletricidade em alguns trechos nos últimos dias.
O Ministério de Energia e Minas declarou no X (ex-Twitter) que a falha ocorreu à noite e que foram acionados “todos os protocolos” para a reconstrução do sistema elétrico. Ainda assim, a capital, a Havana, e boa parte do território ficaram às escuras, recrudescendo um mal-estar social que já vinha crescendo com protestos e dificuldade de abastecimento.
Em termos estruturais, o sistema energético cubano apoia-se em sete centrais termoelétricas com mais de quatro décadas de operação e em condições de degradação variável. A falta de investimentos e a obsolescência das infraestruturas tornam a rede vulnerável a falhas recorrentes. Desde janeiro passado, segundo o governo de Havana, a pressão se intensificou após medidas norte-americanas que, na avaliação oficial, bloquearam parte dos fluxos de petróleo e combustível destinados à ilha — a chamada "morsa" imposta pelos Estados Unidos.
O déficit de combustível compromete sobretudo os geradores de emergência e as termoelétricas que dependem de diesel importado. Na prática, as interrupções tendem a ocorrer à noite, quando a demanda na rede diminui; ainda assim, muitos domicílios deixam ventiladores e circuitos em modo acionado, numa espécie de sinal preventivo para a volta da energia. Famílias com fogões elétricos antecipam o preparo das refeições, enquanto povoados menores recorrem a carvão ou fogueiras improvisadas, segundo relatos jornalísticos.
No plano político e econômico, as medidas anunciadas recentemente pela administração de Miguel Díaz‑Canel — abertura a operadores privados, maior autonomia para empresas estatais e administrações locais, e estímulo a investimentos estrangeiros — ainda não produziram efeitos palpáveis para aliviar a confluência entre escassez de recursos e restrições externas. Para Havana, as reformas representam um movimento tático num tabuleiro maior: é a primeira vez que o Partido Comunista cede formalmente espaços ao mercado, uma tímida liberalização pensada como remédio para uma conjuntura adversa.
Geograficamente, a parte ocidental da ilha já havia sofrido um blecaute no sábado anterior; houve breve normalização no domingo, efetivamente interrompida pelo novo colapso na noite seguinte. Com cerca de 9,4 milhões de habitantes, Cuba contabiliza este episódio como o sexto blackout da rede nacional desde o início do ano, índice que evidencia a fragilidade dos alicerces energéticos e a necessidade de um redesenho estratégico de capacidades.
Como analista, observo que estamos diante de uma confluência entre a tectônica de poder externa — ou seja, a pressão das sanções e bloqueios — e a erosão interna das infraestruturas. No tabuleiro, Havana tenta movimentar peças para recuperar autonomia econômica, mas o relógio geopolítico corrói margens de manobra. A crise elétrica não é só uma falha técnica: é o reflexo de relações de poder e escolhas de longo prazo que agora se manifestam, de forma dramática, nas ruas, nas fábricas e nas casas de Cuba.