Etiópia: ataques em Oromia deixam dezenas de civis mortos e expõem nova fase da tensão política

Ataques em Oromia deixam dezenas de civis mortos; números divergem entre testemunhas e fontes médicas enquanto tensão política se intensifica.

Etiópia: ataques em Oromia deixam dezenas de civis mortos e expõem nova fase da tensão política

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Etiópia: ataques em Oromia deixam dezenas de civis mortos e expõem nova fase da tensão política

Por Marco Severini — Em um movimento trágico que volta a redesenhar linhas de tensão no corredor leste-africano, ao menos 11 civis, e possivelmente muitas mais pessoas, foram mortos por homens armados na região de Oromia, segundo relatos de testemunhas reunidos pela AFP. Autoridades federais atribuem a responsabilidade ao Exército de Libertação Oromo (OLA), embora o balanço oficial das vítimas não tenha sido divulgado de forma unívoca.

Uma fonte médica, contudo, trouxe um quadro mais grave: o contabilizado chegou a 56 mortos e 50 feridos, com a advertência de que esses números podem aumentar à medida que populações deslocadas e dispersas nas florestas e em abrigos informais retornam ou são localizadas.

Os ataques ocorreram entre 31 de maio e 3 de junho em diversos povoados do distrito de Arsi, aproximadamente 170 km ao sul de Addis Abeba, com relatos centrados na localidade de Eleta Chefa. "No total, 11 pessoas que eu conhecia pessoalmente foram mortas no ataque", disse um dos testemunhos identificados pelo pseudônimo Tiksa. Outro morador confirmou que os agressores atacaram sobretudo fiéis — "cristãos ortodoxos e muçulmanos" — descritos como tentando defender suas comunidades.

O conflito entre as forças federais e o OLA remonta a 2018, quando o grupo passou a ser classificado pelas autoridades como "organização terrorista". O movimento justifica suas ações como luta pelos direitos dos cerca de 40 milhões de habitantes da região de Oromia, a mais populosa do país e que abriga a capital federal. Em maio, o OLA declarara intenção de sabotar as eleições parlamentares realizadas em 1º de junho — gesto que se insere num padrão de contestação política e militar que enraíza clivagens étnicas e territoriais.

O balanço discrepante entre testemunhas e autoridades médicas traduz a dificuldade de obter dados confiáveis em zonas rurais onde a comunicação é precária e os deslocamentos de civis, massivos. Um trabalhador de saúde que recolheu corpos em diferentes vilarejos apontou 56 mortos e 50 feridos, acrescentando que muitos permanecem deslocados e escondidos em igrejas, florestas ou na casa de parentes — potencial multiplicador de vítimas a ser confirmado.

O escritório do primeiro-ministro Abiy Ahmed divulgou declaração de condolências às famílias atingidas, reafirmando a acusação contra o OLA, sem, no entanto, apresentar um número consolidado de vítimas. Por sua vez, o OLA respondeu acusando as autoridades federais de encorajar e alimentar uma espiral de violência interétnica — uma narrativa que insere o episódio num quadro maior de disputa por legitimidade e controle territorial.

Como observador da tessitura geopolítica da região, vejo este episódio como um movimento decisivo no tabuleiro da estabilidade etíope: os ataques e as respostas mútuas evidenciam alicerces frágeis da diplomacia interna e uma tectônica de poder que continua a deslocar-se. A conciliação exige, além de medidas de segurança, um desenho político capaz de reconstruir confiança entre comunidades e Estado, caso contrário a região corre o risco de aprofundar fronteiras invisíveis que minam qualquer esforço de pacificação.

Assino, Marco Severini, Espresso Italia.