Hayi: a ameaça híbrida pró-Irã que mira alvos judaicos na Europa

Análise: ICCT identifica padrão pró-Irã na onda de ataques contra alvos judaicos na Europa atribuída ao grupo 'Hayi'.

Hayi: a ameaça híbrida pró-Irã que mira alvos judaicos na Europa

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Hayi: a ameaça híbrida pró-Irã que mira alvos judaicos na Europa

Há uma célula — ou possivelmente várias células — fílio-iranianas em atividade na Europa desde o recrudescimento da ofensiva israelense-estadunidense contra os líderes do Irã. O primeiro traço identificado data da noite de 9 de março, e desde então uma série de ataques contra alvos judaicos vem sendo documentada, sem vítimas fatais, mas com claros indícios de uma estratégia de guerra híbrida coordenada.

Essa é a avaliação do International Centre for Counter-Terrorism (ICCT), que, embora admita a inexistência de uma prova incontestável de patrocínio estatal, sublinha que a dinâmica dos episódios, as reivindicações online e o perfil dos potenciais executores convergem para uma atividade vinculada ao ecossistema pró-Teerã.

O contexto prévio é significativo: após o ataque de 28 de fevereiro, serviços de segurança ocidentais — entre eles a Europol — alertaram para um aumento do risco terrorista na Europa, com foco em sítios e integrantes das comunidades judaicas e israelenses, e com a hipótese de retaliações sob a forma de terrorismo patrocinado pelo Estado iraniano. Segundo o estudo do ICCT, tais receios começam a ser confirmados pelos acontecimentos recentes.

O primeiro incidente documentado foi a explosão de um artefato artesanal diante de uma sinagoga em Liège na noite de 9 de março, que provocou danos materiais limitados. Semanas depois, sucederam-se episódios nos Países Baixos e, mais recentemente, em Londres, onde quatro veículos de um serviço voluntário de ambulância judaica foram incendiados.

As reivindicações foram assinadas por um agrupamento até então desconhecido: Harakat Ashab al-Yamin al-Islamia, abreviado como Hayi — traduzível como “Movimento islâmico da companhia dos justos”. O nome emergiu pela primeira vez em um vídeo divulgado após o ataque em Liège, difundido por canais no Telegram e no X ligados a milícias do chamado “eixo da resistência”, em particular grupos xiitas iraquianos com afinidade ao Irã, e por veículos de comunicação abertamente pró-Teerã.

Nos dias seguintes, o Hayi passou a reivindicar outros ataques: uma sinagoga em Roterdã em 13 de março; uma escola judaica em Amsterdã em 14 de março; um centro comercial também em Amsterdã em 16 de março; e o incidente recente no Reino Unido. A legenda ainda atribuiu operações na Grécia, na França e em outros pontos dos Países Baixos, atribuições para as quais, nota o ICCT, não há confirmação pública e que podem configurar operações de desinformação.

Do ponto de vista técnico, o estudo enfatiza a chamada impronta digital das reivindicações. Antes de 9 de março não havia rastros notorios do Hayi em ambientes online ou offline. A primeira menção aparece em um canal do Telegram ligado à milícia xiita iraquiana Liwa Zulfiqar, anunciando o início de “operações militares contra interesses dos EUA e de Israel”. A partir daí, canais associados a grupos como Asaib Ahl al-Haq — apontados por analistas como próximos à Força Quds dos Guardiões da Revolução — passaram a republicar as reivindicações, repetindo um padrão consistente em quatro canais em árabe.

Como analista, observo que estamos diante de um movimento que combina operações cinéticas de baixo nível e uma arquitetura de mensagens destinada a conferir credibilidade pelo eco nos canais do “eixo”. É um típico golpe de guerra híbrida: negabilidade plausível, uso de proxies, e manipulação da narrativa para ampliar custos políticos e de segurança para os adversários de Teerã. No tabuleiro estratégico, trata-se de um movimento que visa desgastar o adversário sem provocar, de imediato, um escalonamento convencional direto.

Resta, contudo, a necessidade de provas de vínculo estatal irrefutáveis. A resposta europeia exige reforço de proteção de comunidades vulneráveis, intensificação de cooperação de inteligência e uma campanha clara de verificação de fatos para neutralizar a possível onda de desinformação. A tectônica de poder regional encontra, assim, um novo frente de atrito — invisível no mapa convencional, mas muito real na lógica dos riscos transnacionais.