Descoberto filme perdido de Méliès em um velho baú familiar
Baú familiar revela filme perdido de Méliès (1897): 'Gugusse et l'automate' de 45s entregue à Library of Congress. Descoberta reconstitui memória do cinema.
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Descoberto filme perdido de Méliès em um velho baú familiar
Por Marco Severini — Em um encontro discreto entre memória familiar e os depósitos da memória institucional, um pequeno achado reconfigura peças do nosso tabuleiro cultural. Um antigo baú de madeira, passado por gerações entre sótão, celeiro e garagem, revelou-se guardião de um tesouro do cinema: uma cópia de um filme perdido de Georges Méliès.
Quem encontrou as bobinas foi Bill McFarland, professor aposentado e pronipote de um proexionista rural da Pensilvânia. McFarland, que inicialmente desconhecia o conteúdo, levou as películas a um antiquário, que recusou a compra ao constatar tratar-se de rolos em nitrato, material altamente inflamável e potencialmente explosivo.
Decidido a preservar a herança sem incorrer em risco, McFarland deslocou-se no verão passado de sua casa em Michigan até o National Audio-Visual Conservation Center da Library of Congress, em Culpeper, Virgínia. Entre as dez bobinas entregues aos arquivistas havia uma peça de singular importância: um filme de 45 segundos, datado de 1897, identificado como Gugusse et l'automate.
O achado tem valor singular por várias razões. Primeiro, porque se trata de uma produção realizada apenas dois anos após a primeira exibição pública dos irmãos Lumière, sessão da qual Méliès teve conhecimento e que o registrou no mapa inicial do cinema mundial. Segundo, porque os filmes de Méliès passaram por um processo complexo de circulação e pirataria nas primeiras décadas do século XX, e muitas cópias originais foram perdidas ou destruídas. Há relatos de que o próprio Méliès chegou a destruir cerca de cem negativos e que a película fundida foi reaproveitada, inclusive na confecção de botas para soldados franceses na Primeira Guerra Mundial.
Os especialistas da Library of Congress consideram que o rolo descoberto por McFarland pode ser uma cópia de terceira geração do original. Ainda assim, a sequência preservada é reveladora: Méliès interpreta um mago que aciona a manivela de um autômato. A figura cresce, golpeia o mago na cabeça com um bastão; o mago responde com marteladas, o autômato encolhe e, por um truque de montagem, desaparece por completo. Como observou Jason Evans Groth, curador de imagens em movimento da Library of Congress, “as inquadrações são de uma precisão extraordinária para um filme tão antigo, e a comédia resiste ao tempo”.
Além da peça cinematográfica, a descoberta ilumina uma narrativa familiar: a trajetória do bisavô de McFarland, William DeLyle Frisbee, nascido em 1860 na Pensilvânia, e seu papel como elo entre a difusão tecnológica do cinema e as periferias rurais dos Estados Unidos.
Do ponto de vista geopolítico e cultural, o episódio funciona como um movimento decisivo no tabuleiro da memória: recupera um fragmento da vanguarda francesa que, após cair em esquecimento — Méliès chegou a vender brinquedos na Gare Montparnasse enquanto o eixo do cinema deslocava-se para os Estados Unidos — volta a reocupar seu lugar de origem nas coleções públicas. É um lembrete da fragilidade dos alicerces da diplomacia cultural e da importância de instituições conservadoras que atuam como bibliotecas estratégicas do patrimônio global.
O pequeno filme de 1897 ora resgatado reintegra, assim, uma tessitura histórica que liga as inovações técnicas do final do século XIX às formas modernas de circulação cultural e preservação do patrimônio. Para a comunidade de pesquisadores e para os curadores, trata-se de um movimento que redesenha — discretamente, mas de modo significativo — as fronteiras invisíveis da história do cinema.