Gaza: primeiro dia do exame eletrônico do Tawjihi entre deslocamento e falhas de conexão
Primeiro dia do exame eletrônico Tawjihi em Gaza marcado por deslocamento, escolas convertidas em abrigos e falhas na conexão à internet.
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Gaza: primeiro dia do exame eletrônico do Tawjihi entre deslocamento e falhas de conexão
Por Marco Severini - 22 de junho de 2026. No coração da Faixa de Gaza, foi iniciado hoje o primeiro dia da versão eletrônica do exame de conclusão do ensino secundário, o Tawjihi. O movimento, repetido pelo terceiro ano consecutivo, revela não apenas um desafio educacional, mas um realinhamento silencioso das prioridades humanitárias e políticas em um tabuleiro onde a infraestrutura é peça frágil.
Estudantes atravessaram obstáculos práticos para se sentar diante de telas: muitos buscaram acesso em internet cafés, bares e espaços de coworking improvisados, diante da escassez de locais seguros e da degradação das estruturas escolares. A conversão de múltiplas escolas em centros de acolhimento de deslocados, as interrupções frequentes de energia e a baixa qualidade da rede configuram um cenário onde a realização do exame eletrônico se assemelha a um lance arriscado numa partida cujo tabuleiro foi parcialmente desmontado.
Relatos de estudantes confirmam o quadro. Mahmoud Al-Matouqha contou que não conseguiu obter acesso à conexão à internet em sua tenda e, por isso, deslocou-se até um café para realizar a prova. Abdullah Al-Hindiha descreveu ter comparecido ao exame sob condições marcadas pelo deslocamento e pela instabilidade, enquanto Noor Badwan disse que sua escola não podia mais acolher alunos, tendo sido transformada em abrigo, o que a obrigou a procurar um local com internet para completar a avaliação.
As autoridades educacionais prosseguem seus esforços para manter o processo de ensino por meio de plataformas digitais. No entanto, a persistência desses esforços encontra limites objetivos: a infraestrutura elétrica e de telecomunicações continua fragilizada, e o contexto humanitário impõe uma tensão contínua sobre a capacidade de prover educação regular.
Como analista das relações internacionais, observo aqui uma operação de preservação — quase defensiva — de um serviço público essencial. Em termos estratégicos, é um movimento para manter um corredor mínimo de normalidade entre cidadãos e Estado, mesmo quando os alicerces da diplomacia local são sacudidos. A educação, nesse sentido, funciona como uma âncora: manter as provas, ainda que à distância, é preservar um traço de continuidade institucional e de legitimidade social.
O desafio técnico (instabilidade da rede, cortes de energia) e o desafio humano (população deslocada, escolas transformadas em abrigos) desenham uma tectônica de poder que impõe escolhas de prioridade. Para os estudantes, o processo se traduz em custos práticos e psicológicos; para os gestores, em decisões de mitigação que buscam evitar um colapso total do calendário escolar.
Este episódio do Tawjihi reflete, portanto, uma conjunção entre urgência humanitária e estratégia administrativa: um movimento decisivo no tabuleiro da governança local, cujo desfecho terá impacto direto na juventude de Gaza e na reconstrução progressiva das rotas de normalidade.
Diálogo contínuo entre atores locais e internacionais será essencial para estabilizar a conectividade e garantir que a educação não seja mero peão sacrificado em jogos de poder maiores.