Acordo de Islamabad em jogo: negociações em duas fases para reabrir o Estreito de Hormuz enquanto violência escala
Negociações em duas fases visam reabrir o Estreito de Hormuz; violência deixa 34 mortos enquanto Irã rejeita cessar-fogo temporário.
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Acordo de Islamabad em jogo: negociações em duas fases para reabrir o Estreito de Hormuz enquanto violência escala
Por Marco Severini – Em um movimento que lembra um lance cauteloso no tabuleiro de xadrez diplomático, delegados do Paquistão, Egito e Turquia atuam como canal de mensagens entre o emissário do ex-presidente Trump, Steve Witkoff, e o vice-ministro das Relações Exteriores iraniano, Abbas Araghchi. Fontes citadas pela imprensa internacional indicam que a administração norte-americana apresentou diversas propostas ao Iran, todas até agora não aceitas pelos interlocutores iranianos.
O cerne da negociação concentra-se em dois pontos estratégicos: a reabertura total do Estreito de Hormuz e a eliminação do uranio altamente enriquecido iraniano, seja pela retirada do material do país, seja por sua diluição. Segundo reportagem da Reuters, um quadro de entendimento provisório — referido por algumas fontes como o "Acordo de Islamabad" — teria sido redigido pelo Paquistão e trocado entre Teerã e Washington ao longo da noite.
Essa proposta delinearia uma abordagem em duas fases: um cessar-fogo imediato seguido das negociações para um acordo abrangente. O plano prevê, na hipótese de avanço, a reabertura do Estreito de Hormuz em um prazo de cerca de 15 a 20 dias e a realização das conversações finais em Islamabad, com presença física das partes.
No terreno, entretanto, a escalada de violência segue sombria. Relatórios do Al Jazeera apontam que o total de mortos nos recentes ataques atribuídos a ações dos EUA e de Israel contra alvos iranianos subiu para 34. Os bombardeios noturnos e matinais teriam causado ao menos 23 vítimas na província de Teerã — entre elas seis crianças —, cinco mortos em uma área residencial de Qom e seis na cidade portuária de Bandar-e Lengeh. Agências iranianas, como a Fars, também relatam ataques do Irã a instalações americanas nos Emirados Árabes Unidos e no Kuwait.
O clima de desconfiança complica qualquer cálculo: o Irã rejeita publicamente a ideia de um cessar-fogo temporário de 45 dias para negociar, conforme fontes citadas pelo site Axios. A agência Tasnim, ligada aos Guardiões da Revolução, classificou a hipótese como estranha à doutrina iraniana, afirmando que um acordo que mantenha a "sombra da guerra" não tem lugar na estratégia de Teerã. Em análises internas, setores iranianos sugerem que manchetes como as do Axios são utilizadas em operações de influência.
Do ponto de vista estratégico, estamos diante de um momento de tectônica de poder: por um lado, uma iniciativa multilateral de mediação tenta reconstruir canais e redes de confiança; por outro, a violência no terreno atua como força de cisalhamento que deteriora os alicerces frágeis da diplomacia. Se o "Acordo de Islamabad" avançar, será porque conseguirá transformar um movimento tático (cessar-fogo imediato) em uma manobra estratégica de longo prazo, reduzindo riscos de escalada regional.
Contudo, a leitura realista exige cautela. O Irã tem repetidamente afirmado que não aceitará termos que mantenham, de forma latente, a possibilidade de um retorno rápido à hostilidade. Essa postura é um indicador claro de que qualquer solução duradoura exigirá garantias tangíveis — técnicas e multilaterais — sobre o destino do uranio altamente enriquecido e sobre mecanismos verificáveis de segurança no Estreito de Hormuz. Em suma: o tabuleiro está posto, as peças começam a se mover; resta ver se os protagonistas optarão por uma jogada que estabilize o tabuleiro ou por uma investida que promova um redesenho mais amplo das fronteiras invisíveis da influência regional.