Drones atingem Moscou: ataque massivo leva fogo à refinaria e sacode o centro do poder russo
Ataque com 555 drones atinge Moscou; refinaria da Gazprom em chamas, aeroportos fechados e dezenas de feridos. Nova fase do conflito Rússia-Ucrânia.
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Drones atingem Moscou: ataque massivo leva fogo à refinaria e sacode o centro do poder russo
Por Marco Severini — Em um movimento que redesenha, mesmo que temporariamente, as linhas do poder sobre o tabuleiro eurasiático, a guerra transbordou ontem para o coração da capital russa. Pela primeira vez em anos, a fumaça negra resultante de explosões de drones cobriu os céus de Moscou, testemunho visível de que os alicerces da segurança interna estão sendo testados.
Segundo o Ministério da Defesa russo, foram lançados 555 veículos aéreos não tripulados em operações distribuídas por todo o território da Rússia, fazendo desse episódio o segundo maior ataque por número de UAVs desde o início do conflito. Do total, as autoridades atribuíram o lançamento de 180 drones a forças da Ucrânia, numa ação que, pela escala e pelo alvo, marca uma nova fase tática.
O foco mais dramático foi a grande refinaria da Gazprom em Kapotnya, no sudeste de Moscou, cujas chamas abriram colunas de fumaça observáveis a longa distância. O prefeito Sergei Sobyanin informou que, após várias horas, as chamas foram em grande parte controladas. O governador da região de Moscou, Andrey Vorobyov, contabilizou 17 feridos — entre eles duas crianças, de 3 e 10 anos — e relatou danos a dois centros comerciais e a uma torre residencial nas proximidades.
O impacto logístico também foi significativo: todos os quatro aeroportos internacionais de Moscou permaneceram fechados por horas, interrompendo tráfego civil e militar e expondo a vulnerabilidade das infraestruturas estratégicas. Em regiões mais afastadas, houve relatos de vítimas: um homem morto na região de Rostov e duas meninas de 10 e 11 anos feridas na região de Bryansk, após o veículo em que estavam ser atingido.
Enquanto isso, o presidente Putin participava, a cerca de 700 km a leste, de um encontro com representantes dos 11 países do ASEAN em Kazan — uma cortina diplomática que buscava preservar laços comerciais, sobretudo energéticos. A coincidência sublinha a tensão entre as necessidades internas de segurança e a manutenção dos corredores externos de influência.
Do lado russo, o conselheiro presidencial Yuri Ushakov advertiu que o clima criado pelos ataques não é propício a um encontro bilateral entre Putin e Zelensky, reiterado pelo Kremlin e pela oposição ucraniana em diferentes momentos. O ministro das Relações Exteriores, Lavrov, afirmou que a Rússia responderá com "ataques de vasta portata" de forma regular contra alvos que influenciem diretamente a capacidade de combate ucraniana — uma promessa que indica escalada e sistematização das retaliações.
Zelensky afirmou em tom direto que "vai arder conosco", frase que, traduzida para a tônica estratégica, sinaliza intenção de pressionar o núcleo produtivo e logístico russo, transformando infraestruturas energéticas e logísticas em pontos críticos do conflito.
Em perspectiva geopolítica, tratou-se de um movimento que altera momentaneamente a cartografia do conflito: o centro simbólico e administrativo de Moscou foi atingido, elevando a pressão psicológica sobre o aparelho estatal. No entanto, esta não é apenas uma operação de espetáculo; é um ataque calculado sobre nós logísticos — refinarias, centros de distribuição, e infraestruturas civis — que compõem a coluna vertebral do esforço bélico.
Como em um jogo de xadrez em grande escala, cada lançamento de drones testou defesas, forçou deslocamentos e provocou decisões estratégicas que terão desdobramentos políticos imediatos e de médio prazo: maior militarização do espaço aéreo, reforço de medidas de proteção a instalações críticas e pressão diplomática em frentes externas, incluindo os interlocutores comerciais no ASEAN.
O episódio confirma uma tendência de descentralização dos efeitos do conflito: não são mais apenas as linhas de frente que sangram, mas também nodos urbanos e econômicos distantes. Para analistas de Estado e chancelerias, o aviso é claro: a tectônica de poder está em movimento, e as próximas semanas serão decisivas para saber se a escalada será contida, institucionalizada ou ampliada.
Em última instância, a imagem que permanece é a de uma capital até então considerada protegida, agora forçada a responder aos choques de um tabuleiro que se estende por toda a Eurásia — e onde cada peça deslocada reconfigura possibilidades políticas e militares.