Guerra do Gás: Irã anuncia retaliações em curso após ataques a megacampo e alvos no Catar
Irã afirma que retaliações contra ataques a infraestruturas energéticas seguem em curso; Parlamento propõe pedágio no Estreito de Hormuz. Análise de Marco Severini.
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Guerra do Gás: Irã anuncia retaliações em curso após ataques a megacampo e alvos no Catar
Por Marco Severini — A República Islâmica do Irã não considera encerrada a fase de represálias contra os recentes ataques que atingiram suas infraestruturas energéticas, declarou hoje Ebrahim Zolfaghari, porta‑voz do Comando Central Khatam al Anbiya. Em linguagem de quem joga para redesenhar cenários estratégicos, Zolfaghari advertiu: “a resposta está em curso e não foi concluída”.
Segundo a agência local Tasnim, o porta‑voz acrescentou que, caso haja repetição de ofensivas contra as instalações iranianas, os próximos golpes contra as infraestruturas energéticas do agressor e de seus aliados “não cessarão até a destruição completa” e serão “ainda mais severos” do que os disparos da noite anterior. A mensagem é clara: o Irã concentra-se em aumentar o custo estratégico de ataques que toquem o seu complexo energético — o coração do seu poder regional.
Do lado europeu, o presidente francês Emmanuel Macron qualificou de “imprudente” a escalada que pela primeira vez envolve instalações de produção de gás no Irã e em outros países do Golfo, ao chegar para a cúpula da União Europeia. Macron defendeu uma moratória sobre alvos civis e infraestruturas e apelou a uma desescalada imediata, apontando ao calendário de festividades religiosas como janela para reduzir tensões e tentar reiniciar negociações.
No Parlamento de Teerã, está em avaliação um projeto que prevê a cobrança de taxas de trânsito às embarcações que cruzam o Estreito de Hormuz. Deputados citados pela agência ISNA explicam que, se a passagem for usada como rota segura para tráfego marítimo, energia e segurança alimentar, os países beneficiários seriam obrigados a pagar pedágio ao Estado iraniano — uma medida que alia direito marítimo à geopolítica do fluxo energético.
Em paralelo, as hostilidades continuam em Gaza: as Forças de Defesa de Israel (IDF) anunciaram a morte de um alto comando da inteligência do Hamas, Muhammed Abu Shaleh, em um ataque na Faixa de Gaza. Abu Shaleh, segundo o comunicado militar israelense, teria participado no planejamento da ofensiva de 7 de outubro de 2023 e, recentemente, teria trabalhado para reconstituir capacidades do grupo na região, violando o acordo de cessar‑fogo e preparando ataques contra tropas e o Estado de Israel.
Do Kremlin, o porta‑voz Dmitri Peskov alertou que a desestabilização dos mercados energéticos, desencadeada pela expansão das operações militares e pelos ataques contra o Irã, tem efeitos globais — e a Rússia não está imune a essas reverberações. O comentário sublinha a natureza interdependente do tabuleiro energético: um movimento local produz ondas tectônicas que redesenham riscos e preços mundo afora.
Observando a conjuntura como um enxadrista de alto nível, vejo três vetores que definem a próxima fase: 1) a tentativa iraniana de transformar proteção de instalações energéticas em instrumento de soberania e receita (pedágios no Estreito de Hormuz); 2) a ampliação geográfica dos ataques, que eleva o risco de contágio entre Estados do Golfo; 3) a reação internacional, que oscila entre apelos por moratória e a ampliação de posturas de defesa. Cada lance altera alicerces frágeis da diplomacia regional e pode redesenhar fronteiras de influência sem tinta no mapa.
Enquanto as partes trocam avisos e ataques, a prioridade para atores responsáveis deveria ser reduzir o potencial de escalada industrial: preservar infraestruturas civis, proteger rotas comerciais e abrir corredores diplomáticos. Sem isso, a região caminha para um estado em que os custos energéticos serão apenas o reflexo imediato de um conflito cujo tabuleiro ainda não teve seu xeque‑mate definido.
Marco Severini — Espresso Italia. Análise geopolítica e pista de ação sobre a tectônica de poder no Golfo.


