Israel e Líbano fecham acordo-piloto com apoio dos EUA para transferência de controle no sul

Israel e Líbano negociam zonas-piloto com apoio dos EUA para transferir controle no sul do Líbano; Qatar rejeita pedágio no Estreito de Ormuz.

Israel e Líbano fecham acordo-piloto com apoio dos EUA para transferência de controle no sul

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Israel e Líbano fecham acordo-piloto com apoio dos EUA para transferência de controle no sul

Por Marco Severini — Em um movimento que redesenha, peça por peça, as linhas de influência no Levante, Israel e o Líbano estão a discutir um projeto-piloto, assistido pelos Estados Unidos, que prevê o recuo do IDF de determinadas áreas do sul libanês e a transferência gradual do controle para as Forças Armadas do Líbano (LAF). Fontes israelenses ouvidas pela Reuters indicam que as unidades libanesas seriam submetidas a regimes de treinamento e a verificações sob supervisão estadunidense.

Segundo o diário libanês Ad‑Diyar, as conversações em Washington têm como foco a definição das «zonas-piloto» no sul do país do Cedro que passariam à administração das LAF, bem como os mecanismos para robustecer um cessar-fogo duradouro. O Comando Central dos Estados Unidos foi incumbido de instalar uma sala operacional militar para supervisionar, monitorar e mapear a situação no sul do Líbano, abrindo, na prática, caminho para o desmantelamento gradual do mecanismo de controle vigente.

Relatos do diário Al Akhbar, alinhado a círculos próximos ao Hezbollah, apontam que Israel exigiria a presença do exército libanês na crista de Ali al‑Taher e a remoção — sob supervisão norte-americana — de infraestruturas do grupo xiita pró-iraniano. Entre as condições israelenses figura também a investigação sobre o destino do piloto israelense Ron Arad, desaparecido no Líbano em 1986, e a exigência de entrega de eventuais restos antes de qualquer libertação de prisioneiros libaneses.

O IDF pretende, ainda, preservar uma presença na zona tampão do sul libanês e instaurar um canal de coordenação militar direta com Beirut para operacionalizar tais medidas. Em termos estratégicos, trata-se de um movimento que tenta equilibrar a retirada física com a manutenção de alavancas de influência — uma manobra de xadrez que busca evitar vácuos de poder e mitigar riscos de escalada.

No plano interno israelense, a disputa de prioridades ganha contornos delicados. Shmuel Ben Ezra, o novo conselheiro de Segurança Nacional do primeiro‑ministro Benjamin Netanyahu, convocou com urgência autoridades de segurança para debater formas de «encorajar a emigração voluntária» de palestinos da Faixa de Gaza. O Haaretz relata surpresa entre representantes do Mossad, Shin Bet e IDF pelo curto aviso e pela reabertura de um tema que, em reuniões anteriores, não progrediu. Fontes de segurança disseram não haver países dispostos a receber os gazawi, e que essa medida colide com o plano em vinte pontos do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, aceito por Netanyahu, que recomendava a permanência dos residentes na Faixa.

Em outro flanco regional, o Catar manifestou oposição explícita a qualquer plano iraniano de impor tarifas ou pedágios no trânsito pelo Estreito de Ormuz. Em entrevista ao Financial Times, o primeiro‑ministro do Catar, xeque Mohammed bin Abdulrahman bin Jassim Al Thani, afirmou que para um país como o Catar esse corredor marítimo é imprescindível, tornando inaceitável qualquer tentativa de encarecer ou controlar o fluxo naval que assegura sua saída para o mundo.

Os desenvolvimentos descritos configuram um ajuste tectônico na arquitetura de segurança do Levante: um experimento de soberania compartilhada vigiado por uma potência externa, em que o objetivo é reduzir tensões imediatas sem, contudo, entregar o tabuleiro. A clareza dos movimentos e a precisão das garantias serão determinantes para que esse desenho não se transforme em nova fonte de instabilidade.